20 de September de 2009
Postado por: Patoka @ Arquivado em: Notícias, Reviews

Os romances policiais experimentam um novo renascimento, semelhante ao que aconteceu nas décadas de 30 e 40. Aquilo que até há pouco era considerado “literatura B” começou a assumir status artístico inédito. A razão parece evidente: à medida que os valores como família, sexo e religião se tornam fluidos e as instituições são questionadas, a única tragédia que resta em um mundo ambíguo é a morte violenta e cercada de mistério. Mas talvez haja algo além, um elemento perturbador que atinge o inconsciente do leitor, cuja ocorrência teria sido impossível no passado: um pavor inédito, ou tipos de comportamento nunca antes verificados, que só os autores atuais poderiam abordar.

A nova onda do gênero se deve em grande parte aos calafrios inauditos provocados pela trilogia Millennium, do jornalista sueco Stieg Larsson. A obra, lançada na Suécia entre 2005 e 2007, foi traduzida para mais de 40 idiomas e virou sucesso planetário. Millennium é formado pelos seguintes volumes: Os homens que não amavam as mulheres, A menina que brincava com fogo e A rainha do castelo de ar (Companhia das Letras, 688 páginas, R$ 42,50), que chega às livrarias do Brasil nesta semana, numa tiragem de 30 mil cópias. Para os críticos da Europa continental, onde foram lançados antes, os volumes formam “o romance da década” porque, além de ser campeões mundiais de vendagem (15 milhões de exemplares até a semana passada), penetram no imaginário dos novos tempos, empolgando e fazendo tremer o público de agora. Um longa-metragem dinamarquês adaptado do primeiro romance entrou em cartaz nos países escandinavos em março. No Brasil, os dois primeiros volumes atingiram a marca de 100 mil exemplares vendidos, que só obras de Paulo Coelho e Dan Brown são capazes de alcançar.

A diferença de Larsson para outros autores de best-seller é que ele foi o primeiro cadáver a construir o mistério de seu livro. Jornalista e militante, começou a carreira nos anos 70 como editor de um jornal trotskista e designer gráfico da agência TT. Seu pacifismo o levou a mapear os movimentos de direita de seu país e lançar, em 1991, o primeiro livro, o ensaio Extremismo de direita. Passou a ser ameaçado por organizações neonazistas. Em 1995, fundou a revista Expo, para denunciar a xenofobia. Casado por 30 anos com a arquiteta Eva Gabrielsson, vivia pendurado em dívidas. Seus passatempos eram fumar uma média diária de 60 cigarros que ele próprio enrolava e, à noite, escrever uma história de suspense que pretendia lançar em dez volumes e com ela ficar rico. Surgia o projeto de Millennium, uma série de aventuras centrada na dupla de investigadores formada pela hacker punk e lésbica Lisbeth Salander, de 20 e poucos anos, e pelo charmoso quarentão e jornalista econômico investigativo (de esquerda) Mikael Blomkvist. Eles desvendam desaparecimentos, crimes do governo e gangues contratadas pela Säpo, a polícia secreta sueca.
Divulgação

Larsson terminou os dois primeiros livros em 2003 e saiu em busca de uma editora. No fim do ano, depois de muitas recusas, assinou um contrato com a editora Nordstedts. Durante o ano seguinte, corrigiu as provas e entregou o terceiro volume à editora. Em 9 de novembro de 2004, ele subia as escadas da redação da Expo quando caiu fulminado por um ataque cardíaco. Estava com 50 anos. Especulou-se que teria sido morto por neonazistas, o que foi desmentido. O primeiro volume foi publicado dois meses após sua morte e logo obteve repercussão. A fortuna que Larsson ganhou (avaliada hoje em US$ 17 milhões) e não chegou a conhecer foi herdada pelo pai e pelo irmão. A viúva, com quem não era casado legalmente, ficou sem um tostão e reivindica seus direitos na Justiça. Eva disse que encontrou no HD do laptop do companheiro cerca de 200 páginas do quarto volume da série quase pronto, bem como as sinopses dos enredos dos volumes 5 e 6. E que pretende publicar esse material em um volume.

Pode ser inócuo. Porque, de forma também misteriosa, Millennium compõe uma trilogia perfeita, com tramas e vozes articuladas umas nas outras. O primeiro volume trata do sumiço da herdeira de uma família de industriais. O segundo, de tráfico de mulheres. O terceiro, de como o Estado encobre bandidos e executa inocentes. O resultado é uma sinfonia macabra de suspense, saga de uma família disfuncional e uma coleção de situações as mais violentas possíveis, como pedofilia, incesto, sevícias e outras perversões sexuais. O catálogo de imprevisibilidades é tão amplo e sinistro que faz crer que a história de Millennium não poderia ter acontecido antes. Não haveria condições sociais para a aparição de uma personagem como a hacker Lisbeth Salander, “com seus movimentos aracnídeos”, trabalhando excitada a quebrar códigos diante do computador. Nem famílias desagregadas a ponto de o incesto se tornar um evento cotidiano. Os amores não poderiam ter sido mais livres que agora, como o ménage à trois entre Blomkvist, sua amante e o marido dela. Não haveria tecnologia suficiente para o capital migrar eletronicamente de forma tão rápida. Num mundo em desagregação – ao mesmo tempo avançado tecnologicamente –, onde o Estado se revela tão amoral quanto os indivíduos, assomam apenas dois heróis possíveis: o jornalista abelhudo e a punk que afronta o governo corrompido de um país rico. Uma dupla de desajustados que busca as razões da decadência a qualquer custo, ao mesmo tempo que é perseguida pelas máquinas de tortura do poder. Millennium é o flagrante desses tempos. E um romance que surpreende o leitor com a alta velocidade de suas armadilhas.

Creditos: Revista Época




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