Sherlock e o retrato de época

Cada geração tem sua referência de heróis. Eu, que nasci em 1977, quando penso em Super-Homem, penso em Christopher Reeve; a lembrança de Homem-Aranha vem atrelada àquela série tosca que passava na Manchete; e Hulk, por mais que eu goste do filme de Ang Lee, me remete à dupla Bill Bixby/Lou Ferrigno.
Não que os antigos sejam sempre melhores: Tobey Maguire encarnou à perfeição Peter Parker na trilogia de Sam Raimi, e quem quiser superá-lo terá que suar a camisa no “reboot” da série.
Esse é um dos fatores que garante os intermináveis remakes, novas versões etc. em Hollywood. Se um personagem deu certo no passado, por que não apresentá-lo às novas gerações, aproveitar os fãs antigos, saudosos do personagem, e faturar mais alguns milhões? Na atual toada, é provável que personagens como Batman, Homem-Aranha etc. continuem nas telas do cinema por anos a fio, como é típico com James Bond.
O mesmo acontece agora com Sherlock Holmes. Em termos de produção hollywoodiana, ele estava longe das telas desde “O Enigma da Pirâmide” (1985).
Mais do que comparar quais dos Sherlocks é mais eficaz (Nicholas Rowe ou Robert Downey Jr.), penso no retrato de época que os dois filmes trazem.
“Um bom filme é também um documentário”, disse Eric Rohmer. A frase, usada por Jean-Claude Carrière, roteirista de filmes como “A Bela da Tarde”, no livro “A Linguagem Secreta do Cinema”, é evocada num momento em que ele fala sobre o retrato histórico que, no futuro, ficará evidente. Escreve Carrière: “O filme entra na História por todas as portas. Refaz a História, ajuda a recontar o passado, torna-se a própria História. ‘Satyricon’, de Fellini, pode ser visto como uma visão de um planeta distante, mas, se olharmos com cuidado, também veremos um filme que é inequivocadamente sobre o ano de 1968”.
“O Enigma da Pirâmide” tem Steven Spielberg como produtor-executivo. Insere-se numa tradição iniciada com “Tubarão” (1975) e cristalizada com “Star Wars” (1977), ou seja, o blockbuster, filme para grandes audiências que mira principalmente o público jovem. Nos anos 80, essa fatia lucrativa de consumidores definiu a cara da produção norte-americano. “Indiana Jones”, “De Volta para o Futuro”, “Curtindo a Vida Adoidado” etc., a lista vai longe.
“O Enigma da Pirâmide” é menos um filme sobre Sherlock Holmes e mais sobre a juventude e os conflitos que a chegada da vida adulta e suas responsabilidades trazem. Algo que Spielberg fez muito a partir de “ET”. “O Enigma…” tem um quê de “Os Goonies”, já que mostra as peripécias de um grupo de adolescentes espertos. As sequências na pirâmide são quase uma cópia de “Indiana Jones e o Templo da Perdição”. E os vilões, os seguidores da seita, parecem ter saído de “Mad Max 3”. Não é a Londres vitoriana que vemos ali, mas sim a estética oitentista.

Já o novo Sherlock é muito mais um filme de Guy Ritchie e Robert Downey Jr. Da época presente está a montagem videoclípica, rápida, que o próprio Ritchie ajudou a consolidar em longas como “Snatch”.
Há um tom marcante atual que é a busca pela realidade, seja no 3D de “Avatar”, seja no tom realista do recente “Batman”. O novo Sherlock, na sua rigorosa reconstituição de época, é fruto desse momento.É um Sherlock físico, assim como o James Bond atual. Não basta ser inteligente, tem que ter corpão, ser eficiente, ter aproveitamentó máximo é a ideia.
Por isso não chega a ser um absurdo a escalação de Downey Jr. para o papel. Sua marca registrada, o cinismo, parece ser um elemento essencial para a sobrevivência nos dias de hoje. Há uma necessidade de se duvidar de tudo, de derrubar mitos. Quando Sherlock deduz coisas inacreditáveis baseado na observação, na lógica e na pesquisa, é como se ele consultasse um mestre Google embutido na sua cabeça.
Fonte: Folha Online
Um Comentário para “ Sherlock e o retrato de época ”
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