sexta-feira, 18/10/2019
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Entrevista: Pierce Brown para o GoodReads

Original: Good Reads
Tradução: Cine
Revisão: Bruna Fernández

A transformação de Pierce Brown de estudante sem rumo para um autor best-seller de fantasia começou em meio a uma geleira aos 22 anos. O aspirante a escritor, que já teve seis livros sem sucesso e recebeu 130 cartas de rejeições, estava marchando no gelo às 2 da manhã quando teve a ideia para sua distopia, a Trilogia Red Rising. Com seu cenário em um Marte futurístico, o livro mostra a história de Darrow, um membro da oprimida casta de Vermelhos, que embarca em uma jornada brutal de metamorfose e astúcia para enfrentar a decadentes e dominantes casta dos Ouros, que escravizaram seu povo e mataram sua esposa, Eo. Brown dá créditos ao fato de escrever “contra o tempo” para seu primeiro esboço – ele o terminou em menos de dois meses. Sua fascinante estreia de 400 páginas, vencedora desse ano do Goodreads Choice Awards na categoria de Melhor Autor Estreante e finalista de Melhor Fantasia Jovem e Ficção Científica, imediatamente ganhou exércitos de fãs e comparações a Jogos Vorazes, O Senhor das Moscas e As Crônicas de Gelo e Fogo.

Uma guerra de apostas pelos direitos dos filmes se seguiu (a Universal ganhou, com Marc Foster de Guerra Mundial Z como diretor) e Brown começou a escrever o roteiro. Com a segunda parte da trilogia, Golden Son, sendo lançado esse ano, Brown, agora com 26 anos, está trabalhando duro no manuscrito final de seu trabalho.

O Goodreads o tirou de perto de seu computador para falar sobre inspiração, gravidade e os perigos de trabalhar com fones de ouvido que bloqueiam ruídos.

De onde a sua inspiração para Red Rising surgiu?
Foi bem orgânico. Eu estava fazendo trilha na Cascade Montain Range e estava relendo a peça grega Antigone. Eu estava impressionado pelo contraste da história, a dicotomia das forças representadas, uma jovem garota marginalizada que bate de frente com o poder frio, e eu pensei que era uma coisa linda um personagem tão frágil ser a semente da destruição. E então eu me perguntei: O que Antígone deixou para trás? E se tivesse uma pessoa que fosse apaixonada por Antígone? Como as ações dela poderiam transformar não só ele, mas o mundo? A história começou a se desenrolar diante de mim. Eo foi concebida bem antes de Darrow. Ela foi a primeira personagem. Sempre foi sobre esse sacrifício.

Você viu a história como uma trilogia desde o início?
Sim. Esse é o tipo de estrutura que eu mais amo. Eu acho que impõe disciplina no segmento da história, apesar de várias trilogias abandonarem completamente essa disciplina por razões que são desconhecidas por mim.

Como Marte surgiu na equação?
Em termos de temática ressonou em mim por conta da dissonância entre o deus Romano Mars e o deus Grego Ares, e como os Romanos degradaram a mitologia grega. Eles fizeram o deus Marte mais um protetor do coração e do lar do que o deus Ares, que foi insultado pelos gregos. Mas também porque Marte é o próximo ponto de partida para a humanidade, por isso tem origens lá também. E eu sempre fui fascinado por ele desde que eu o vi por um telescópio quando era uma criança no Arizona.

Você teve que fazer muita pesquisa sobre o espaço e o sistema solar?
Não muita. Eu mudei bastante isso, não é um livro de ficção-científica, está mais para uma ficção-científica de fantasia. Eu queria que os planetas fossem diferentes nos termos de tipos étnicos e culturais, mas você não pode fazer muito disso porque já tem várias partes diferentes. Mas se alguém morasse em Marte, por exemplo, com um terço da gravidade da Terra, ou Luna, a lua da Terra, que tem um sexto da gravidade da Terra, você precisa levar em consideração o quanto isso iria afetar o peso dessas pessoas, a estrutura dos ossos, e a densidade, e você tem que construir tudo ao redor disso, e isso é muito interessante de se explorar.

Depois que você começou com um personagem, o quão rápido todo o universo se envolveu em sua mente?
Muito rápido. Eu escrevi o livro em menos de dois meses. Eu não fiz um esboço dele, o que foi bem problemático quando estava próximo do final, mas em grande parte a história estava praticamente formada porque Darrow tinha uma motivação muito forte. Eu sempre fui um fã da noção de que um livro é a guerra de um coração contra si mesmo, e é isso o que eu penso que um bom personagem é, e Darrow tem isso dentro de si porque ele não quer nada mais além de amor.

Em Red Rising a sociedade é dividida entre a hierarquia de castas codificadas por cores, com os Vermelhos na base e os Ouros no topo. Como que esse sistema surgiu?
A origem está em A República, de Platão, no qual ele diz que em uma sociedade perfeita os homens deveriam formar uma hierarquia natural. Há homens com almas ouro, homens com almas de cobre, ferro. Os de ferro deveriam lavrar o solo, enquanto os de almas ouro deveriam governar a cidade. Mas ele não acreditava que isso deveria ser passado através do nascimento; ele acreditava em uma meritocracia. O problema é que ele não viu que as pessoas gostariam de acumular riquezas ou poder e passar isso para aqueles que amam. Então eu pensei que isso seria interessante. Nós temos uma meritocracia, mas como isso poderia ser envenenado?

Enquanto escrevia, você tinha a consciência de qualquer comentário contemporâneo social que você poderia fazer?
Não estou tentando dizer nada a ninguém. Tinha 23 anos quando eu escrevi esse livro, que é uma experiência de vida bem limitada, então eu tenho que fazer isso com um nível bem grande de humildade. Não necessariamente diz o que eu penso, mas o que é real nesse mundo imaginário. Reivindicar algumas grandes noções de crítica governamental não é algo que eu sempre quis fazer. O que é realmente interessante para mim é como as pessoas e a economia funcionam e como grupos tomam decisões. É divertido ver como as coisas de acontecem em padrões parecidos. Somos muito previsíveis em termos do arco geral da história. E isso é realmente o que eu queria ver em Red Rising: o que nós reconhecemos no mundo deles que é paralelo ao nosso próprio mundo, apesar do mundo deles ser completamente diferente, e apesar deles olharem para a democracia como uma coisa abominável. O segundo livro irá se concentrar ainda mais na mídia e na ideia de propaganda, o que é algo com o qual sou fascinado.

Todas as castas tem seu próprio dialeto com suas gírias distintas (como os Vermelhos em ‘bloodydamn’*). Como você criou isso?
* traduzido como ‘porra’ na versão brasileira.
Eu baseei muitas das gírias dos Vermelhos em pôsteres que foram colocados em Nova Iorque durante a imigração irlandesa no final da metade do século 19. Eu peguei um pouco do palavreado deles e só alterei. Já para os Cinzas há uma inflexão mais londrina. Mas eu acho que é arriscado porque criar gírias é muito besta às vezes. Battlestar Galáctica usava a palavra “frak”, e leva um tempo para se acostumar. Mas depois você sente como se fosse parte de um clube. A linguagem é uma maneira de nós pertencermos, e pensei que seria incrível dar aos fãs e aos meus personagens uma maneira de se comunicar e pertencer a algum lugar.

Quem você diria que são os principais escritores que o influenciaram em sua criação de Red Rising?
Obviamente os contemporâneos, eu diria. J.K. Rowling, porque ela surgiu em uma nova era em que a cultura da fantasia está sendo aceita pela sociedade dominante de uma maneira bem melhor que J.R.R. Tolkien conseguiu. Eu acho que Gene Wolfe, que é um escritor mais dedicado à ficção científica, é fantástico. Stephen King é incrível, mas mais porque eu me dei conta de que, apesar de eu ficar totalmente imerso nas histórias dele, não consigo escrever nem um pouco como ele, e não tenho nem um pouco de paciência, e George R.R. Martin por conta da quantidade incrível de histórias que ele consegue juntar. E Frank Herbert também. Eu acho que Duna e O Conde de Monte Cristo de Alexandre Dumas são os paralelos mais próximos de Red Rising em termos de tom e história. As pessoas o comparam a Jogos Vorazes ou Maze Runner e outras coisas do tipo, mas eu sempre senti que a alma de Red Rising é muito mais na linha de Alexander Dumas e Frank Herbert. Aqueles caras eram clássicos, eu não estou me comparando a eles, mas foi de lá que eu tive a inspiração. E então eu diria que Tolkien teve uma grande influência em mim assim como Homero e Sófocles.

Como você descreveria seu estilo de escrita?
Eu quero que meu estilo de escrita seja algo acessível, e é por isso que é tão interessante ter o livro sendo chamado de Jovem Adulto. Há muitas discussões entre os leitores: É Jovem Adulto ou não é? Eu não sei. Mas o negócio é que o Jovem Adulto é simplesmente um livro que é interessante em cada capítulo. Muitos livros não são necessariamente assim. Muitos dos meus livros favoritos não são assim, e isso requer uma boa dose de paciência, e eu não sei se essa paciência está alinhada com o jeito moderno de se pensar. Estou sempre lutando com isso: Deveria alongar mais a história, mas então perder o interesse do leitor? Como eu faço esse balanço da velocidade do livro com o conteúdo? Meu editor sempre sabe quando eu estou lendo um autor russo ou coisas que não foram escritas nos últimos 30 anos porque minha escrita começa do nada a ficar muito inchada, e há várias conversas inconsequentes, e ele me pergunta, “Como isso está conduzindo a trama? Seu leitor acabou de parar de ler”.

Você acha que pensa sobre esse mundo o tempo inteiro agora? É difícil se desligar?
É bem difícil. É impossível me desligar se eu estou dirigindo e escutando música ou se eu estou fazendo alguma coisa que não requer muita atividade mental. Eu divago, e eu não penso sobre minha vida, eu penso sobre Red Rising. Eu me sinto muito abençoado nesse momento porque eu tive a oportunidade de realmente refletir sobre esses personagens e o mundo que os envolve. Quando você ler o segundo livro, acho que você poderá notar como minha escrita melhorou porque eu entendo aquele mundo melhor, eu entendo as motivações desses personagens melhor e é menos forçado, simplesmente flui de dentro de mim agora. É muito divertido, e é assim porque eu não saio desse mundo. E enquanto é difícil separar o trabalho da realidade às vezes, sair desse mundo e ter uma conversa é incrível agora porque há uma conexão com os personagens.

Como Darrow evoluiu com você se desenvolvendo mais como um escritor?
Ele é mais introspectivo, ele se preocupa mais com as pessoas ao seu redor, e acho que ele tem uma visão bastante míope do mundo, enquanto foi fácil escrever Red Rising, eu também estava testando o leitor, e eu acho que o leitor irá gostar de Darrow muito mais com o progresso da série. É difícil porque eu sei que eu criei um personagem que algumas pessoas não gostam porque ele é impulsionado por uma única coisa e ele não é legal com as pessoas que gostamos. O que é frustrante às vezes é que as pessoas pensam que esse cara sou eu, que essas são as minhas opiniões. Mas não, esse é Darrow. Ele fica mais esperto enquanto as coisas progridem, e isso é muito bom para mim. Ele se torna um homem.

Qual foi a parte mais emocionante da jornada até agora?
Há duas coisas, na verdade. Uma é escrever algo e meu editor dizer, “Não, Darrow não faria isso,” e me dar conta que eu criei algo além de mim mesmo, é quase como se o produto fosse maior e mais esperto do que eu posso ser. Com sorte! A outra coisa é provavelmente alguém dizer “bloodydamn” para mim.

Quais foram os desafios mais difíceis que você encontrou para adaptar o livro para as telas de cinema?
Os maiores desafios são entender o que a audiência sabe e o que não sabe. Porque o mundo é tão vasto que é difícil levar a sua audiência pela mão no formato de cinema sem se sentir condescendente e sair explicando tudo. O que eu tento às vezes é tirar a complexidade do monólogo interior de Darrow. Com o livro nós podemos estar dentro de sua mente, e mesmo que você concorde ou não com suas decisões, você entende porque ele as tomou. No filme há muitas oportunidades de alienar o público pelas ações terríveis de Darrow. É um processo muito complicado, e é novo para mim. Mas eu também estou escrevendo para séries de TV no momento. Eu comecei a escrever alguns programas de ficções científicas baseados em fantasias que em breve vão ter seus pilotos, e eu estou muito animado com eles.

Você também está escrevendo o livro três no momento?
Sim, e está muito bem. Estava tendo uns problemas para começar porque, antes desses livros, eu nunca escrevi nada com sequencias. É difícil, querer fazer justiça ao personagem, dar um nó em todas as pontas soltas, e estruturar tudo de forma apropriada. Não quero me meter em um buraco. Então com o livro dois demorou um pouco mais para escrever que o primeiro, e com o três eu realmente tenho feito muitos esboços. Na verdade tive que escapar por algumas semanas, meus pais tem uma cabana na costa de Washington, então eu fui lá para escrever em frente à lareira e fiz bastante trilhas, e isso realmente ajudou a limpar meu bloqueio criativo.

Você tem um título para o livro três?
Sim, eu tenho.

Você pode compartilhar?
Na verdade, não. (Nota do LeS: essa entrevista é um pouco antiga, o título do terceiro livro já foi revelado. Será Morning Star.)

Pergunta dos leitores do Goodreads

Sem dar nenhum spoiler significante, você pode nos dar um gostinho de Golden Son?
Darrow começa a entender que o que os Ouros mais temem é a guerra civil, e então ele começa a entender a si mesmo como o Ceifeiro e o criador do caos. Então eu lhe perguntaria: Como alguém cria o maior caos na cultura dos Ouros?

Se você pudesse escolher um ator para interpretar Darrow, quem seria?
Um ótimo ator.

Porque você escreve? É porque você gostaria de falar sobre o mundo para as pessoas, ou porque você gostaria de entender o mundo para si mesmo?
É porque quero compartilhar um mundo.

Uma das minhas coisas favoritas em Red Rising é o oposto de outras séries similares no fato de que Darrow está reconstruindo ao invés de estar passando por uma decadência lenta. Foi importante que você sentisse que ele não tinha nada a perder desde o início?
Sim, eu acho que esse é o ponto. Porque eu comecei com Eo e com aquela perda, e quando você faz isso, você começa quase que do nada, e é como reconstruir um homem e um sonho.

Como será quando você tiver que dizer adeus para esse universo, quando você terminar o livro três?
Muito, mas muito sangue. Brincadeira. Eu acho que depende de como eu o terminar – eu tenho dois possíveis finais que estou escrevendo agora; vou ver qual é mais tematicamente melhor quando chegar lá – mas eu definitivamente será como dizer adeus a um velho amigo e talvez um que eu nunca mais veja.

Qual é a quantidade de escrita que você faz por dia?
Eu tento escrever pelo menos oito horas por dia. Eu acordo, tomo meu café da manhã, leio o jornal ou leio um livro de poesia, particularmente livros de romances ingleses porque eles têm boas expressões e frases e realmente me ajudam em meu próprio uso de palavras. Eu escrevo até a hora do almoço e às vezes tenho um intervalo para comer ou ir malhar, e então eu volto e escrevo por mais quatro horas. Eu tento terminar por volta das 7 ou 8 da noite, porque senão, eu estarei acordado até às 4 da manhã, não necessariamente trabalhando, mas sem conseguir dormir porque estarei pensando sobre aquilo, e isso é problemático porque acaba comigo no próximo dia. Tento tratar minha rotina como a de um trabalho normal pois tenho esse relógio batendo dentro de mim que diz que eu devia estar trabalhando porque eu não estou realmente vivendo a vida real. É quase como se eu fosse seguido por ai essa culpa enorme por não estar produzindo.

Você tem algum hábito de escrita ou ritual?
Café. E eu entro em um estado que estou escrevendo e bloqueio todo o resto. Uso aqueles fones de ouvido que bloqueiam o barulho de fora, e é realmente traumatizante porque de vez em quando um amigo entra na minha casa e surge por trás de mim e me dá um susto enorme. É um jeito muito perigoso de escrever.

O que você está lendo no momento?
Ancillary Justice de Ann Leckie e um livro que um amigo me deu sobre Gustave Doré, meu artista favorito. Ele fez várias gravuras para Paraíso Perdido e a Divina Comédia de Dante.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

Um comentário

  1. Muito legal vocês postarem entrevistas. É bacana conhecer as pessoas por trás das histórias que gostamos. Parabéns, Bruna e Cine! ( :

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