quinta-feira, 23/02/2017
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Resenha: “Alif, o invisível”, de G. Willow Wilson

Livro: Alif, o invisível
Autora: G. Willow Wilson (@GWillowWilson)
Páginas: 352
Editora: Fantástica
Tradução: Ryta Vinagre
Resenha por: Bruna Fernández
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Autora de graphic novels aclamadas e criadora da primeira heroína muçulmana dos quadrinhos, pela Marvel Comics, além do livro de memórias A leitora do Alcorão, a norte-americana convertida ao islamismo G. Willow Wilson dá vida a um jovem hacker vivendo num estado de exceção no Oriente Médio em seu premiado romance de estreia, Alif, o invisível. Primeiro lançamento de 2015 do selo Fantástica Rocco, o livro conquistou o World Fantasy Award e rendeu à autora comparações com escritores como Philip Pullman, Neil Gaiman e J.K. Rowling. Na trama, teologia islâmica, vigilância eletrônica e os acontecimentos da Primavera Árabe se mesclam para tecer uma rica narrativa, na qual o cotidiano colide com o fantástico e o mundo físico com o digital.

“- Você leu muito desses livros de fantasia, irmão mais novo?
– É só o que leio.” – p. 94

Alif, o invisível é uma das grandes apostas desse ano do selo Fantástica da Editora Rocco. Ele chegou para o Livros em Série junto de um kit muito legal e um release com entrevista com a autora, tudo publicado por aqui anteriormente. Me apaixonei pela capa minimalista, mas o que realmente me chamou a atenção em relação a esse livro foi a autora, G. Willow Wilson. Casada com um egípcio ela se converteu ao islamismo e esse é apenas o seu segundo romance, pois ela é na realidade uma renomada e premiada escritora de quadrinhos. Mas vejam só, não estamos falando de quaisquer HQs, G. Willow Wilson é a criadora da Mrs. Marvel, a primeira heroína muçulmana da história. Com essas credenciais, me animei demais para ler Alif e o resultado foi extraordinário.

Alif, o invisível nos conta a história do jovem hacker que usa Alif, o nome da primeira letra do alfabeto árabe, como seu pseudônimo na internet. Ele trabalha protegendo seus clientes online – dissidentes, fundamentalistas islâmicos, qualquer um que deseja ir contra a censura e mora em uma cidade do Golfo Pérsico (fictícia, claramente) chamada simplesmente de A Cidade. Ele está secretamente apaixonado por uma garota e, obviamente, isso acaba gerando problemas para ele; principalmente depois que um antigo livro acaba nas mãos de Alif.

A minha primeira sensação ao começar a ler esse volume foi de total estranheza, simplesmente pela minha falta de familiaridade com a cultura persa/árabe/muçulmana. A autora consegue misturar de uma forma muito didática e delicada, essa cultura, com a magia dos djins e ainda adicionar a tecnologia à equação. Ainda há pitadas de política e religião, sem deixar a narrativa maçante. Conseguimos ter uma visão diferente do Islã, deixando de lado os massacres e loucuras cometidos em nome da religião.

Há uma quantidade absurda de personagens, porém os que mais me conquistaram foram o xeque Bilah, um senhor idoso, chefe religioso da maior mesquita da Cidade que tem conversas filosóficas e metafóricas com o jovem Alif; Vikram, genioso e por vezes cruelmente sincero; NewQuarter, um lendário hacker e principalmente Dina, a vizinha egípcia de Alif, que decidiu aderir ao uso do véu chocando tanto seus pais quanto Alif. Porém o mais interessante em Dina é que ela é a escada que o personagem principal usa para crescer ao longo da narrativa. Ela é forte por ele, ela é astuta por ele, ela abre os olhos de Alif para o mundo real, para o verdadeiro valor da vida e isso, para mim, acabou tornando-a a verdadeira personagem principal na narrativa.

“- E parece que essa história toda está saindo do controle.
– Vivemos numa cidade governada por um emir vindo de uma das famílias mais puras da terra, onde alguns censores podem jogar alguém na prisão por escrever coisas na internet e se apaixonar pela pessoa errada. (…) Já saiu de controle há muito tempo.” – p. 107

Através de uma imersão nas imagens descritas pela autora, nos sentimos imersos no mundo criado pela autora. Alif, o invisível abre os olhos, os ouvidos e o coração do leitor para um mundo de possibilidades e isso o torna uma leitura indispensável para os fãs de fantasia.


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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