quinta-feira, 12/10/2017
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Resenha: “Escuridão total, sem estrelas”, de Stephen King

Livro: Escuridão total sem estrelas
Autor: Stephen King
Páginas: 392
Editora: Suma de Letras
Tradução: Viviane Diniz
Resenha por: Gui Ferreira
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Na ausência da luz, o mundo assume formas sombrias, distorcidas, tenebrosas. Em Escuridão total sem estrelas os crimes parecem inevitáveis; as punições, insuportáveis; as cumplicidades, misteriosas.

Em 1922, o agricultor Wilfred e o filho, Hank, precisam decidir do que é mais fácil abrir mão: das terras da família ou da esposa e mãe. No conto Gigante do volante, após ser estuprada por um estranho e deixada à beira da morte, Tess, uma autora de livros de mistério, elabora uma vingança que vai deixá-la cara a cara com um lado desconhecido de si mesma. Já em Extensão justa, Dave Streeter tem um câncer terminal e faz um pacto com um estranho vendedor. Mas será que para salvar a própria vida vale a pena destruir a de outra pessoa? E, em Um bom casamento, uma caixa na garagem pode dizer mais a Darcy Anderson sobre seu marido do que os vinte anos que eles passaram juntos.

Os personagens dos quatro contos de Stephen King passam por momentos de escuridão total, quando não existe nada — bom senso, piedade, justiça ou estrelas — para guiá-los. Suas histórias representam o modo como lidamos com o mundo e como o mundo lida conosco. São narrativas fortes e, cada uma a seu modo, profundamente chocantes.

Quem lê Stephen King sabe que ele cria personagens como ninguém. Se por um lado as suas histórias são essencialmente sobrenaturais, por outro os seus protagonistas, antagonistas e coadjuvantes são pessoas normais, como eu e você. Talvez seja essa a premissa que torna os seus livros e contos tão assustadores. Os seus heróis, cheios de defeitos e de seus próprios fantasmas, não são semideuses, escolhidos pelo destino ou qualquer coisa assim. Ao colocar pessoas comuns enfrentando situações incomuns, King dá às suas obras um quê de realidade e uma sensação de isso pode acontecer comigo também.

Esse pensamento permeia toda a leitura de Escuridão Total, Sem Estrelas, uma coletânea que reúne quatro contos do Mestre do Terror. Enquanto vai de página em página, o leitor é acompanhado pela sensação de que os personagens podiam muito bem ser ele próprio e, às vezes, se flagra perguntando: se eu estivesse nessa situação, faria as coisas da mesma forma?.

O aterrorizante é que, muitas vezes, a resposta é: sim, eu faria.

Isso porque esses quatro contos tratam de um tema em comum: a maldade humana. Até que ponto uma pessoa normal é definida por uma situação extrema, e o quanto essa situação muda essa pessoa, a ponto de levá-la a fazer o impensável. Os personagens principais de cada história – um pai de família que, com a ajuda do filho, mata a esposa; uma escritora que é estuprada e busca vingança; um homem com câncer terminal e que faz um pacto com o Diabo para se livrar da doença; uma esposa que descobre um segredo terrível sobre o seu marido – são levados por King através de uma jornada escura e fascinante de autodescoberta, chegando sempre à conclusão de que é impossível conhecer completamente a si mesmo ou ao próximo.

Todos os contos são perturbadores, pesados e impossíveis de deixar de lado. Os dois primeiros, 1922 e Gigante do Volante, são os mais bem trabalhados da coletânea, tão poderosos e macabros que você, curioso sobre o que vai acontecer em seguida e sobre em qual canto sombrio essas histórias vão te levar, não consegue parar de ler. O primeiro é uma viagem que mostra como uma pessoa pode chegar ao fundo do poço (literalmente), arrastando consigo aqueles que mais ama. Já o segundo traz uma escritora traumatizada e violentada passando por uma transformação íntima, enquanto busca vingança contra o seu estuprador (é impossível não sentir satisfação enquanto a “protagonista” faz os “vilões” – e deixo entre aspas porque não há vilões nem protagonistas nesses contos – pagarem o preço por seus atos).

O terceiro conto, Extensão Justa, é o mais curto do livro. Uma pena, porque a história é excelente, e a única com um elemento totalmente sobrenatural inserido. A obra termina em Um Bom Casamento, que é a maneira de King dizer durma com um olho aberto durante a noite. Às vezes, o monstro em seu quarto não está no armário, mas dividindo a cama com você.

Por fim, Escuridão Total, Sem Estrelas, é uma obra imperdível para os fãs do gênero de terror e suspense. Sobre o autor, não há o que falar: como sempre, Stephen King é sensacional, deliciosamente prolixo, e dono de uma escrita assustadora. Um contador de história como poucos hoje em dia. Parabéns também para a Suma das Letras, que traz uma edição que deleita os olhos. A capa é linda, e passa exatamente aquilo que King busca nos mostrar em seus contos: há escuridão em todo lugar.

E, às vezes, ela vence.


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

Sobre Guilherme

Nasceu no Condado de Roseira e foi se perder na cidade grande de São Paulo, onde cursa o terceiro ano de Publicidade e Propaganda na Faculdade de Comunicação Cásper Líbero. Viciado em séries, música e livros, prefere passar uma noite de sábado lendo "Sob a Redoma" do que sair para balada. Escreveu um livro que - se tudo sair como deve - será publicado ainda esse ano, talvez em agosto. Vai que dá certo e ele vira um escritor famoso, né.

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