sábado, 27/05/2017
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Resenha: “No coração da floresta”, de Emily Murdoch

Livro: No coração da floresta
Autor: Emily Murdoch (@LeftyWritey)
Páginas: 272
Editora: Agir Now
Tradução: Maryanne Linz
Resenha por: Bru Fernández
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E se tudo o que você soubesse fosse uma mentira? E se a pessoa que deveria te proteger não tivesse condições nem mesmo de cuidar de si mesma? Carey é uma jovem de 15 anos com uma história de vida difícil. Levada às escondidas pela mãe para um parque nacional quando ainda era uma criança, tudo o que ela e a irmã menor conhecem é a floresta. Elas só têm uma a outra, considerando que a mãe, viciada em drogas e mentalmente instável, muitas vezes desaparece por dias sem fim. É durante um desses sumiços que repentinamente as meninas se vêem diante de dois estranhos, que as tiram da floresta e as levam para um mundo novo e surpreendente de roupas, meninos e aulas. Agora Carey precisa enfrentar a verdade por trás do seu passado e decidir se vale a pena revelar um terrível segredo, que, caso descoberto, pode colocar em risco a segurança e a nova vida das duas irmãs.

“O que acontece na floresta fica na floresta, entendeu?”

O pessoal da Agir Now não estavam brincando quando afirmaram que iriam lançar livros que fariam seus leitores pensar. É o segundo livro da editora que eu tenho o prazer de ler (o primeiro foi o livro de estreia do selo, Vivian Contra o Apocalipse) e já posso confirmar que eles estavam falando muito sério.

O começo do livro me causou um pouco de estranheza por conta da escrita permeada de tantos “num”, mas logo isso é explicado, pois a personagem principal, Carey, tem sotaque caipira (americano, claro). Apesar da explicação achei isso bem maçante no início do livro, mas acabei me acostumando.

No coração da floresta é o livro de estreia de Emily Murdoch e conta a história de duas irmãs, Carey e Jenessa, que moram em um trailer no meio de uma densa floresta com uma mãe cheia de problemas, o principal deles sendo o vício em metanfetamina. Ela levou a filha mais velha, Carey, para a floresta quando a menina ainda era bem nova e Jenessa nem tinha nascido. Logo, praticamente tudo o que as meninas conhecem é essa vida difícil. Faz cinco semanas que Joelle, a mãe das garotas, saiu para buscar comida e não voltou mais. É nesse momento que um homem e uma mulher aparecem na floresta: uma assistente social e o pai de Carey foram buscá-las para levá-las de volta para casa – essa é basicamente a primeira parte do livro, que se divide em três partes.

O sr. Benskin, pai de Carey, ganha a causa para poder ter a guarda das meninas e as leva para morar com ele em sua fazenda… com sua nova esposa, Melissa, e sua enteada, Delaney. A princípio achei que isso poderia criar grandes atritos, mas Melissa sabia que o marido estava a procura da filha esse tempo todo e aceita as meninas em casa de braços abertos. Até mesmo a jovem, doce e quieta Jenessa, que não é filha dele. A trama principal do enredo envolve saber o porquê dessas meninas viverem e crescerem no meio do nada e também no mistério por trás do mutismo seletivo da irmãzinha de Carey: Jenessa não fala com ninguém. Ela sabe falar, mas sussurra palavras de vez em quando apenas para a irmã mais velha. E a única que sabe o motivo por trás disso é Carey.

“Quem sou eu agora? Quem eu era antes? Sou a mesma garota?” – p. 53

A adaptação das meninas, que acontece na segunda parte do enredo é muito difícil. Elas passam mal algumas vezes por não estarem acostumadas com as comidas – tanto na variedade quanto na quantidade – afinal, elas se viravam apenas com enlatados, praticamente apenas feijões, quando ficavam abandonadas na florestas por várias semanas sem a mãe. Carey até criou a sua própria entidade para quem pedir, rezar e ter fé: são José dos feijões. Achei muito interessante a forma como Carey realmente se apega ao seu “santo”, mostrando que é da natureza humana se apegar à esperança e à fé. Se por um lado temos Melissa facilitando a chegada das meninas, a enteada Delaney é outra história. Ela viveu o tempo todo na sombra da “garota que foi sequestrada pela mãe” e quando as meninas chegam a atenção dos pais é ainda mais divida e isso pesa. Porém ela não é aquela garota detestável que todos amamos odiar, é um ser humano como qualquer outro tentando se adaptar em uma situação nova. Seu personagem tem motivação e isso tornou o livro ainda mais incrível e real para mim.

Fora a adaptação em casa, há também a adaptação na escola e na sociedade como um todo. Muitos conceitos são novidades para elas. Por ser criança, talvez, Jenessa se dá melhor com essa transição do que a irmã. Carey tem ataques de pânico quando se vê em situações complexas e cheguei a rir e até mesmo ficar com um peso enorme no coração com alguns raciocínios da personagem, por ela piamente acreditar que sejam coisas normais. A personagem foi incrivelmente bem construída e é impossível não se apegar a Carey. Mesmo tendo passado por poucas e boas sob os “cuidados” de sua mãe, Carey é inocente e boboca para muitas coisas, porém é uma garota de personalidade forte que não se deixa abalar com facilidade pelos outros.

Já a terceira e última parte do livro trás a resolução sobre a questão do mutismo seletivo de Jenessa e o que aconteceu naquela fatídica noite. Um desfecho a altura de toda a narrativa que foi tão bem construída pela autora.

Não tinha muito ideia do que esperar quando peguei No coração da floresta, mas foi uma história que me surpreendeu com a sua simplicidade. Uma temática diferente do que estamos acostumados a ver por aí nas livrarias: sem fantasia, sem romance, sem erotismo, apenas uma forte narrativa sobre a vida. Sobre a sobrevivência e também sobre o papel importantíssimo da família e, principalmente, da esperança.

“Considero a floresta um luxo em certos aspectos, separada do resto do mundo. O mundo cheio de pessoas é tão rápido, tão barulhento e ocupado. Sempre tem coisas para fazer, nenhuma delas parecendo tão importante assim.” – p. 152


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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