segunda-feira, 16/10/2017
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Resenha: “Toda luz que não podemos ver”, de Anthony Doerr

Livro: Toda luz que não podemos ver
Autor: Anthony Doerr (Website)
Páginas: 528
Editora: Intrínseca
Tradução: Maria Carmelita Dias
Resenha por: Bru Fernández
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Marie-Laure vive em Paris, perto do Museu de História Natural, onde seu pai é o chaveiro responsável por cuidar de milhares de fechaduras. Quando a menina fica cega, aos seis anos, o pai constrói uma maquete em miniatura do bairro onde moram para que ela seja capaz de memorizar os caminhos. Na ocupação nazista em Paris, pai e filha fogem para a cidade de Saint-Malo e levam consigo o que talvez seja o mais valioso tesouro do museu. Em uma região de minas na Alemanha, o órfão Werner cresce com a irmã mais nova, encantado pelo rádio que certo dia encontram em uma pilha de lixo. Com a prática, acaba se tornando especialista no aparelho, talento que lhe vale uma vaga em uma escola nazista e, logo depois, uma missão especial: descobrir a fonte das transmissões de rádio responsáveis pela chegada dos Aliados na Normandia. Cada vez mais consciente dos custos humanos de seu trabalho, o rapaz é enviado então para Saint-Malo, onde seu caminho cruza o de Marie-Laure, enquanto ambos tentam sobreviver à Segunda Guerra Mundial. Uma história arrebatadora contada de forma fascinante. Com incrível habilidade para combinar lirismo e uma observação atenta dos horrores da guerra, o premiado autor Anthony Doerr constrói, em Toda luz que não podemos ver, um tocante romance sobre o que há além do mundo visível.

“- Sabe qual a maior lição da história? A história é aquilo que os vitoriosos determinam. Eis a lição. Seja qual for o vencedor, ele é quem decide a história. Agimos em nosso próprio interesse. Claro que sim. Me dê o nome de um país que não faça isso. O truque é perceber onde estão os seus interesses.” – p. 89

Há quem ache o tema Segunda Guerra Mundial batido, porém esse foi um dos fatores que mais me chamou a atenção em Toda luz que não podemos ver. Desde a época de escola a SGM se tornou um assunto de meu interesse pois sempre me pareceu inacreditável crer que homens foram capazes de cometer tantas atrocidades com seus semelhantes por conta de diferenças de raça. Não que hoje em dia as coisas estejam muito melhores, mas vamos nos ater à história do livro!

Para quem não gosta de livros sobre guerras vale avisar por aqui que o livro se passa na época da SGM, porém não temos um livro que fale essencialmente sobre seus líderes e todas aquelas batalhas que aprendemos na escola. A narrativa aborda a vida de pessoas normais e mostra ao leitor como a SGM afetou a vida delas. É um ponto de vista muito interessante pois naquela época a forma mais comum de comunicação em massa eram os rádios e, devido ao enorme avanço da tecnologia, nós tendemos a esquecer como as coisas eram demoradas e um pouco mais difíceis naquela época. O autor criou uma narrativa um tanto quanto peculiar pois ela não é contada de forma linear e, além disso, divide-se entre vários personagens. No início pode ser um pouco complicado de acompanhar, mas uma vez que nos acostumamos com as personagens, a leitura flui com facilidade.

A história divide-se principalmente entre dois personagens: a jovem Marie-Laure, uma garotinha que perde a sua visão muito jovem e (re)aprende andar em seu bairro devido ao seu amoroso e paciente pai, que monta uma maquete que é a miniatura perfeita dos arredores para que ela aprenda a andar sozinha; e o jovem alemão Werner, que mora em um orfanato junto com a sua irmãzinha Jutta, que apesar de mais nova é muito mais sagaz que o irmão mais velho. Werner tem um talento incomparável quando se trata de consertar rádios quebrados – apesar de rádios serem proibidos ele e a irmã mais nova tinham um no qual ouviam programas de dois homens franceses que tinham uma rádio clandestina ensinavam várias coisas para pessoas que conseguissem encontrar sua frequência – e acaba entrando para o exército do Führer.

Achei simplesmente incrível a forma como Anthony Doerr cria uma intrincada rede de personagens, fazendo o destino dos dois protagonistas se conectarem de tal forma que é inevitável que eles se cruzem em algum momento. Mais do que uma história sobre a guerra, Toda luz que não podemos ver é uma história sobre a inesgotável fonte de esperança do ser humano, sobre como os mais fortes nem sempre são os mais musculosos e poderosos e sobre como podemos todos ser facilmente manipulados por pessoas má intencionadas. Esse livro é, acima de tudo, um romance sobre pessoas reais fazendo o possível e o impossível para sobreviver ao verdadeiro terror de uma guerra. É impossível não se emocionar com inúmeras passagens e impossível não refletir sobre a vida a cada vez que fechamos o livro.

Um romance para ler, reler e ler novamente. E se emocionar a cada nova (re)leitura.

“- Quando perdi a visão, (…) as pessoas disseram que eu era corajosa. Quando meu pai foi embora, as pessoas disseram que eu era corajosa. Mas não era coragem; eu não tinha escolha. Acordo todos os dias e vivo a minha vida. Você não faz a mesma coisa?” – p. 468


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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