sexta-feira, 13/10/2017
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Resenha: “Feliz ano velho”, de Marcelo Rubens Paiva

Livro: Feliz Ano Velho #01
Série: Marcelo Rubens Paiva
Autor: Marcelo Rubens Paiva (@marcelorubens)
Páginas: 272
Editora: Alfaguara
Tradução:
Resenha por: Monique Marie
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Feliz ano velho é o primeiro livro de Marcelo Rubens Paiva. Aos vinte anos, ele sobe em uma pedra e mergulha numa lagoa imitando o Tio Patinhas. A lagoa é rasa, ele esmigalha uma vértebra e perde os movimentos do corpo. Escrito com sentido de urgência, o livro relata as mudanças irreversíveis na vida do garoto a partir do acidente. Ele é transferido de um hospital a outro, enfrenta médicos reticentes, luta para conquistar pequenas reações do corpo. Aos poucos, se dá conta de sua nova realidade, irreversível. E entende que é preciso lutar. O texto expressa a irreverência e a determinação da juventude, mesmo na adversidade, e a compreensão precoce “de que o futuro é uma quantidade infinita de incertezas.

Li a sinopse e achei que seria um ótimo livro, quando ele chegou e postei nas redes sociais a foto os comentários eram os melhores possíveis. Fiquei tão curiosa que abri o Skoob atrás de resenhas/opiniões das pessoas e para meu espanto vi muitos que odiaram com todas as forças do mundo este livro. Okay, minha curiosidade só aumentou.

A história em si está resumida na sinopse, nada de diferente acontece além do que está escrito. O interessante fica por conta de descobrir como ele vai contar essa fase de sua vida, se serão acontecimentos pós-acidente, apenas uma vida de hospital e se em algum momento ele fará algum comentário sobre seu pai.

Ao terminar de ler entendi os dois lados de quem leu: se você pega o livro achando que será uma auto biografia clássica e que o autor colocará uma visão “romântica” do acidente é melhor nem encostar no livro. Quem leu esperando isso se decepcionou com toda a certeza do mundo, como eu não fazia parte dessa leva me encaixo nos que adoraram. Marcelo Rubens Paiva tinha apenas 20 anos quando pulou da pedra como o Tio Patinhas e teve nesse ato a definição de sua condição física para o resto da vida. Não deve ser fácil, se eu tenho alguma dor muito forte já me sinto incapaz de fazer muita coisa, imagina se perdesse todos os movimentos de meu corpo, eu realmente não consigo imaginar o que é isso. Imagina então isso acontecer aos 20 anos, não poderíamos esperar outra forma deste livro ser contado além da visão de um jovem com uma linguagem totalmente coloquial e até cheia de palavrões. Marcelo não tem qualquer restrição quanto ao que escrever, você vai ler desde coisas fofas que ele pensa sobre sua mãe até uma transa narrada com os maiores detalhes, mais uma vez entra o tal do “incômodo” que alguns sentiram, a forma como ele escreveu o livro.

Para minha surpresa eu não li apenas histórias de hospitais, já que ele além de narrar seu dia a dia na UTI e nas primeiras internações também narra acontecimentos de sua vida (histórias de Faculdade em sua grande maioria), para que você consiga entender quem é Marcelo. Você pode esperar a pessoa mais transparente do mundo, até arrogante em alguns aspectos, mas sempre sincero. Seja falando de seu time do coração (ainda não entendo como alguém pode amar o Corinthians e o Flamengo ao mesmo tempo) ou deixando claro que a maconha era sua companhia de todas as horas.

Fiquei mais feliz ainda quando ele contou sobre seu pai, em detalhes. Não consigo imaginar como foi passar pela situação de ter sua casa invadida por policiais, ter seu pai levado a força e descobrir após anos que ele fora torturado e morto. Não contentes em ter o pai, levaram a mãe e a irmã mais velha que para a sorte de todos voltaram vivas para casa. Ótima passagem para quem enche a boca e diz que gostaria que a época da ditadura voltasse, vale a pena ler com carinho essa parte do livro e pensar bem antes de falar algo que não vivemos na pele.

Outro ponto legal de comentar é que em nenhum momento ele se colocou como coitado em estar tetraplégico, ele assume que foi uma burrice o que fez mas que aquela era sua condição a partir daquele momento. É incrível ler e entender o valor que não damos a coisas mínimas como poder sentar, poder ler, poder ver televisão, poder tomar banho, coisas que ele comemorava com a mesma empolgação que comemoraria o fato de poder andar de novo. É uma boa reflexão do que devemos dar o real valor nessa vida mas sem ser com frases óbvias, esse “ensinamento” fica nas entrelinhas das histórias contadas. Isso é incrível.

Para terminar deixo a minha impressão de que Marcelo teve muita sorte sim, pois a família não saiu do lado no pior momento (ou segundo pior) de sua vida, seus amigos mostraram que estariam ali com ele para tudo e que ele não desistiu de viver. Não leiam o livro com o pensamento de uma biografia chata, mas com o pensamento de que você entrará no universo de um jovem ativo que vê sua vida mudar radicalmente, vale a pena sim cada página deste livro.

“Tem uma firmeza no teu texto que espero que você mantenha: é um texto limpo de teorias e com um puta sentimento que expressa e defende tuas ideias. Por exemplo, é deliciosa a maneira como na história há elementos críticos sobre as pessoas, comportamentos sem nenhuma cagação de regras ou ironias baratas, mas com uma puta firmeza.” – p. 9

Sobre Monique Marie

Publicitária frustrada com o pouco dinheiro da área e admiradora de tudo que envolve a política. Gosta de seriados que tenham serial killers, filmes infantis, fanática por futebol e F1, além de tentar competir com o Dr. Reid (Criminal Minds) quem lê mais rápido. Geralmente não gosta de ler o que está "na moda", adora indicações e ainda acredita que muitos livros se vendem pela capa. Não se separa de seu amigo rivotril e escreve no mínimo um texto por dia.

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