sexta-feira, 13/10/2017
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Resenha: “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury

Livro: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 215
Tradução: Cid Kipnel
Resenha por: Bru Fernández
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Imagine uma época em que os livros configurem uma ameaça ao sistema, uma sociedade onde eles são proibidos. Para exterminá-los, basta chamar os bombeiros – profissionais que outrora se dedicavam à extinção de incêndios, mas que agora são os responsáveis pela manutenção da ordem, queimando publicações e impedindo que o conhecimento se dissemine como praga. Para coroar a alienação em que vive essa nova sociedade, as casas são dotadas de televisores que ocupam paredes inteiras de cômodos, e exibem “famílias” com as quais se pode dialogar, como se estas fossem de fatos reais.

Este é o cenário em que vive Guy Montag, bombeiro que atravessa séria crise ideológica. Sua esposa passa o dia entretida com seus “parentes televisivos”, enquanto ele trabalha arduamente. Sua vida vazia é transformada quando ele conhece a vizinha Clarisse, uma adolescente que reflete sobre o mundo à sua volta e que o instiga a fazer o mesmo. O sumiço misterioso de Clarisse leva Montag a se rebelar contra a política estabelecida, e ele passa a esconder livros em sua própria casa. Denunciado por sua ousadia, é obrigado a mudar de tática e a buscar aliados na luta pela preservação do pensamento e da memória.

“— A escolaridade é abreviada, a disciplina relaxada, as filosofias, as histórias e as línguas são abolidas, gramática e ortografia pouco a pouco negligenciadas, e, por fim, quase totalmente ignoradas. A vida é imediata, o emprego é o que conta. o prazer está por toda a parte depois do trabalho. Por que aprender alguma coisa além de apertar botões, acionar interruptores, ajustar parafusos e porcas?”

Imagine você, querido leitor, viver em um mundo em que possuir livros guardados em casa seja considerado um crime. Os leitores mais aficionados vão sentir até palpitações só de pensar em um mundo no qual os livros são proibidos. Esse é exatamente o cenário – absurdo! – do clássico Fahrenheit 451, do renomado autor Ray Bradbury. Em um futuro não muito distante do nosso, ambientado em uma cidade estadunidense não-tão-futurística, porém opressiva, as casas são à prova de fogo. Logo, os bombeiros assumem uma função inteiramente nova e radical: eles devem atear fogo em livros; os atrozes livros que não devem perturbar os cidadãos com suas ideias. Cidadãos que vivem mentalmente isolados, quase sem interagir com os outros e vivendo imersos em novelas

Nessa narrativa acompanhamos a personagem de Guy Montag, um bombeiro que tem essa nova função e dar fim a todo e qualquer livro que encontrar pela frente. Ser bombeiro é uma tradição de família e Guy acredita piamente que está agindo da forma correta. Entretanto, depois de queimar tantos livros, Montag começa a se questionar quais seriam as motivações das pessoas que continuam a infringir a lei apenas pelo prazer da leitura. Esses questionamentos começam depois que Montag conhece a adolescente Clarisse, sua nova vizinha, que puxa assunto com o bombeiro, fazendo questionamentos simples, como por exemplo “Você é feliz?”, mas que deixam Guy completamente perdido e fascinado.

“— O que está havendo? — Montag raramente via uma casa tão iluminada.
— Ah, minha mãe, meu pai e meu tio estão conversando. É como andar a pé, só que bem mais gostoso. Meu tio foi preso uma outra vez, eu lhe contei? Por andar a pé. Ah, nós somos diferentes mesmo.
— Mas sobre o que vocês conversam?”

Depois de ter a semente do questionamento plantada em si, Guy quase perde a esposa e, durante a revista na casa de uma senhora antes de atear fogo a todos os livros que ela tem, uma frase de um livro salta aos olhos do protagonista sem querer. É o suficiente para atiçar sua curiosidade e ele acaba roubando o livro para ler mais tarde. O maior choque, porém, vem quando a dona da vasta biblioteca resolve queimar junto com seus livros. Guy Montag não consegue compreender porque alguém abriria mão de sua vida por itens tão “inúteis”. Para que ter conhecimento? Apenas para ter incertezas? Para conversar com outras pessoas? Mas que desperdício! Assista a essa programação vazia no seu telão, tome essa pílula e seja feliz!

Em contraposição a essa personagem temos Beatty, chefe dos bombeiros, o grande carrasco e julgador. Apesar de todo o ódio pelos livros, ele é capaz de citar autores famosos de cabeça, mostrando-se, curiosamente, um grande conhecedor do conteúdo que é objeto de tanta repulsa. Só que a partir do momento em que Montag questionou algo pela primeira vez, já não tinha mais volta. Ele passa a consumir cada vez mais histórias e chega a entrar em conflito por não conseguir reter as histórias em sua mente.

Apesar de ter sido publicado em 1953, a crítica feita pelo autor em relação à censura, aos meios de comunicação em massa e a alienação das pessoas, além da intolerância ao complexo e do diferente, não poderia ser mais atual. O enredo soa muitas vezes absurdo, mas quantas notícias recentes tivemos sobre a destruição de objetos e livros de uma cultura? Quantas pessoas vivem em presas aos seus smartphones e esquecem de olhar o mundo com os próprios olhos e não através de uma tela? Uma distopia clássica clara e direta que bebe na fonte de outros clássicos como Admirável mundo novo e 1984, que precisa ler lida, relida, analisada e discutida.

“Lembre-se, os bombeiros raramente são necessários. O próprio público deixou de ler por decisão própria.”


Aviso Legal: Esse livro foi adquirido pela própria resenhista.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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