domingo, 19/11/2017
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Raphael Montes resenha “Quem tem medo do lobo”

Livro: Quem tem medo do lobo
Autor: Karin Fossum
Editora: Suma de Letras
Páginas: 256
Tradução: Fernanda Abreu
Resenha por: Raphael Montes
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Dois crimes no mesmo dia põem uma pequena cidade em polvorosa. Na mata próxima, a polícia acha o corpo ensangüentado de Halldis Horn, que vivia solitária numa casa isolada. No centro, um homem transtornado assalta o banco local e, na fuga, leva consigo um refém.

Para o inspetor Konrad Sejer, encarregado da investigação, a única pista para o assassinato é Kannick Snellingen. O pequeno delinqüente de 12 anos perambula pelas ruas de dia, mas passa as noites no reformatório. Ele foi o primeiro a ver o corpo e garante ter visto também Eriki, o ‘maluco das redondezas’, perto da casa. Esquizofrênico, fugitivo do manicômio, ele tem uma personalidade mais complexa do que se imagina. E é também o refém do assaltante do banco.

Quem tem medo do lobo é um dos romances elogiados da norueguesa Karin Fossum. Fossum iniciou a carreira como poetisa, mas foi sua série policial protagonizada pelo inspetor Konrad Sejer que trouxe reconhecimento internacional. Ainda assim, em todo o trabalho da autora, o esmero com as palavras e as delicadas metáforas traduzem sua veia poética.

Neste suspense psicológico, o ponto de partida – confuso, mas essencial – é a fuga de Errki Johrma, paciente esquizofrênico, de uma instituição de doentes mentais. Pouco depois, a idosa Halldis Horn é brutalmente assassinada em sua casa isolada na floresta. A única testemunha é Kannick Snellingen, 12 anos, amante de arco e flecha, que afirma ter visto Errki, “o maluco das redondezas”, no local do crime. O caso vai parar nas mãos do taciturno inspetor Konrad Sejer, que busca rapidamente falar com Errki. Ocorre que, no mesmo dia em que o corpo de Halldis é encontrado, a polícia é colocada de prontidão por um assalto ao banco da cidade. Transtornado, o ladrão faz um refém durante a fuga: Errki Johrma.

Na trama, todos os personagens ganham sutil profundidade, de modo que o leitor é mergulhado na loucura de Errki, na agitação do assaltante que o captura e na melancolia de Sejer. Apesar da intrincada sinopse, a história é de simples assimilação, com poucas reviravoltas e cenas de ação, o que pode deixar insatisfeitos os mais adeptos do thriller norte-americano. Ainda assim, a discrição com que o novelo do mistério é costurado seduz o leitor. Sem fazer qualquer comparação ou menção direta, Fossum remonta o clássico Chapeuzinho vermelho de forma despretensiosa, mas genial: Kannick é o caçador, Halldis é a vovó que possivelmente foi devorada pelo lobo mau, Errki Jorma. E é justamente na interação entre os personagens que reside a grande qualidade nos livros de Fossum. São histórias humanas, viscerais, em que o íntimo vale mais do que o fato. As pistas tortuosas do crime se confundem às mentes distorcidas dos protagonistas. Os diálogos – precisos – saltam aos olhos, ora divertidos, ora tensos, sem que a autora erre a mão.

Fica clara a preocupação de Fossum em investigar a psique humana. Sua série com o inspetor Konrad Sejer confirma uma tendência do romance policial moderno: a queda da figura do detetive. Em Quem tem medo do lobo, o inspetor Sejer é coadjuvante ao esqueleto principal, funcionando como fio conectivo entre as várias situações. No entanto, em vez de focar na investigação, Fossum prefere mergulhar nas próprias situações, essas sim reveladoras dos recônditos da mente.

O mesmo acontece em A vela do demônio, segundo livro da autora publicado no Brasil. Dois jovens delinquentes, Andreas e Zipp, praticam pequenos furtos pela cidade. Um dia, Andreas desaparece e a polícia quer saber o que Zipp tem a informar sobre o paradeiro do amigo. Mas Zipp não pode confessar que a última lembrança que tem de Andreas é a dele entrando na casa de uma senhora com uma faca na mão. Konrad Sejer surge para investigar o desaparecimento de Andreas. Mais uma vez, a investigação policial é acessória: a essência está na amizade dos delinquentes, na tensão que envolve o sumiço, bem como no trágico destino de Andreas, revelado logo nas primeiras páginas. Interessa à autora explorar segredos obscuros em pequenas comunidades da Noruega. E as consequências desses segredos.

Karin Fossum é conhecida como “Rainha do Crime” no país, foi chamada pelo New York Times de “autora magnífica de suspense psicológico”. Além disso, Fossum ganhou o Glass Key Award pelo romance Don’t Look Back, que também foi premiado com o Riverton Prize; foi finalista do Crime Writers’ Association Gold Dagger (Associação da Adaga Dourada de Escritores de Romances Policiais) em 2005 pelo livro Calling Out For You e seu romance The Indian Bride foi ganhador do The Los Angeles Times Book List em 2008. Por fim, o Time of London a nomeou um dos “50 melhores autores policiais de todos os tempos”, posto francamente merecido. Karin Fossum mostra, sem qualquer dificuldade, que é possível fazer boa literatura policial com delicadeza e poesia.


Aviso Legal: Esse livro foi adquirido pela próprio resenhista.

Raphael Montes nasceu em 1990, no Rio de Janeiro. Advogado e escritor, publicou contos em diversas antologias de mistério, inclusive na Playboy e na prestigiada revista americana Ellery Queen Mystery Magazine. Suicidas é o primeiro romance do autor, nascido de um projeto de mesclar subgêneros clássicos do policial em uma roupagem moderna. Amante e pesquisador do tema, Raphael é dono de uma biblioteca com mais de 5.000 livros do gênero e autor de variados estudos, tendo uma coluna semanal sobre literatura policial no Jornal do Brasil.

Sua pouca idade e a escrita tensa e instigante chamaram a atenção do mercado literário brasileiro: Suicidas (ed. Benvirá) foi finalista do Prêmio Benvirá de Literatura 2010, do Prêmio Machado de Assis 2012 da Biblioteca Nacional e do prestigiado Prêmio São Paulo de Literatura 2013.

Sucesso de crítica e bem recebido pelos leitores, o autor foi recentemente convidado a publicar em inglês, em antologia policial organizada por Clifford Landers, ao lado de nomes como Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles e Patrícia Melo. Além disso, realiza trabalhos como copidesque, ministra palestras sobre processo criativo e escreve o projeto de uma série policial para TV. Dias Perfeitos, sua próxima obra policial, será publicada pela ed. Companhia das Letras em março de 2014.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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