quinta-feira, 30/03/2017
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Rick Haarig resenha “O oceano no fim do caminho”

Livro: O oceano no fim do caminho
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Páginas: 208
Tradução: Renata Pettengill
Resenha por: Rick Haarig
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Foi há quarenta anos, agora ele lembra muito bem. Quando os tempos ficaram difíceis e os pais decidiram que o quarto do alto da escada, que antes era dele, passaria a receber hóspedes. Ele só tinha sete anos.
Um dos inquilinos foi o minerador de opala. O homem que certa noite roubou o carro da família e, ali dentro, parado num caminho deserto, cometeu suicídio. O homem cujo ato desesperado despertou forças que jamais deveriam ter sido perturbadas. Forças que não são deste mundo. Um horror primordial, sem controle, que foi libertado e passou a tomar os sonhos e a realidade das pessoas, inclusive os do menino.

Ele sabia que os adultos não conseguiriam — e não deveriam — compreender os eventos que se desdobravam tão perto de casa. Sua família, ingenuamente envolvida e usada na batalha, estava em perigo, e somente o menino era capaz de perceber isso. A responsabilidade inescapável de defender seus entes queridos fez com que ele recorresse à única salvação possível: as três mulheres que moravam no fim do caminho. O lugar onde ele viu seu primeiro oceano.

Eu poderia ter feito uma resenha de Deuses americanos. Acredito que ainda é uma obra subestimada. Ouço pouco falar dela. Mas Gaiman tem o tempo a seu favor – e Deuses americanos já rendeu seus filhos – Os filhos de Anansi e em breve, uma minissérie na HBO. Pois bem, prefiro falar de um livro menor, com mais sutileza e uma certa doçura melancólica. Seu livro mais recente, O oceano no fim do caminho.

Confesso que o devorei em um final de semana. Bem traduzido pela Renata Pettengill, o livro é mais um testemunho de como Gaiman é fascinado pelo poder dos mitos. Deuses e lendas são para ele um plano próximo, a casa ao lado. Ali mesmo o Cosmos, o planeta ou a sua vida podem ser salvos ou condenados por criaturas que podem padecer por questões tipicamente humanas – não fossem esses seres de outra dimensão, fantasmas, monstros, alienígenas, deuses ou demônios. Pelas palavras de Gaiman conhecemos uma parte de sua substancia, frequentemente aquela que nos aproxima dessas criaturas divinas, extraordinárias – aquela onde emerge a angustia que a existência inevitavelmente traz. Entretanto atravessar o caminho dessas entidades pode ser o convite para viajar pelas bordas do profundo vale do fantástico – que traz a vertigem da loucura e da destruição em suas profundezas. Rotas íngremes que Neil Gaiman é um mestre a nos guiar.

Eis aqui o fantástico envolvendo algo muito mais surpreendente e poderoso – a nossa Humanidade. É nela que podemos alcançar o divino e o monstruoso, onde vislumbramos o Desconhecido que está dentro de nós. Somos nós mesmos os deuses, os monstros e os alienígenas que nos assombram. Gaiman traz na estranheza e no assombro de suas lendas contemporâneas o espelho distorcido que nos apresenta o Humano em toda a sua extensão. Seus mundos não são mundos de ilusões escapistas. Não há reinos maravilhosos e distantes. O horror e o sublime acontecem aqui, em um subúrbio inglês ou nos campos do Alabama, porque é aqui onde estamos e atuamos. Somos nós, ali, e nada mais.

E em O oceano no fim do caminho um homem de meia idade volta ao seu cenário de infância, e descobre que sua memória o havia protegido de suas vivências aos sete anos, quando uma experiência aterradora e fantástica o levou a uma casa no fim da estrada, a conhecer Lettie Hempstock e sua família, e a forças incompreensíveis e perversas que rondam à espreita a nossa existência.

O autor sabe conduzir a historia em um ritmo crescente, sem pausas. A estrutura é limpa, elegante, sem excessos nem falsas pistas para confundir o leitor. A historia empurra o olhar para a linha seguinte, a sensação é de que não há tempo para se pensar. O que foi dito é o necessário. E sobretudo haverá perguntas sem respostas. Gaiman nesse ponto é quase religioso. Acredita em mistérios. Menos por nos proteger de uma Verdade maior que uma Verdade que é incompreensível, simplesmente.

Um livro emocionante e melancólico. Um livro que terminei com um suspiro longo de satisfação. Porque pude entender que todos nos podemos ter tido nosso Oceano ali no fim da rua, onde o Universo começa. E que a idade não deve nos fazer esquecer.


Aviso Legal: Esse livro foi adquirido pela próprio resenhista.

Rick Haarig possui vasta experiência em produção literária corporativa, publicitária, acadêmica e contos.

O despertar é a primeira incursão em um romance de ficção – fruto de um trabalho de uma década de pesquisas que contaram com visitas à Rússia, França e Norte da África e contou com a colaboração de historiadores, linguistas, neurocientistas e especialistas em diversas áreas.

Haarig vive com a mulher e o filho em São Paulo, Brasil.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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