sexta-feira, 20/10/2017
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Resenha: “Anjos da morte”, de Eduardo Spohr

Anjos da morteLivro: Anjos da morte (#02)
Série: Filhos do Éden
Autor: Eduardo Spohr (@eduardospohr)
Editora: Verus
Páginas: 586
Tradução:
Resenha por: Bru Fernández
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Quando o século XX raiou, o tecido da realidade, a barreira mística que separa os mundos físico e espiritual, adensou-se. Os novos meios de transporte, as ferrovias e os barcos a vapor levaram o progresso aos cantos mais distantes do globo, pervertendo os nódulos mágicos, apagando o poder dos velhos santuários, afastando os mortais da natureza divina.

Isolados no Sexto Céu, incapazes de enxergar a terra justamente pelo agravamento do tecido, a casta dos malakins, cuja função é estudar e catalogar os movimentos do cosmo, solicitou ao arcanjo Miguel a criação de uma brigada que descesse à Haled para pesquisar os avanços da civilização. O príncipe ofereceu o serviço dos exilados, que há milênios atuavam na sociedade terrestre, alheios às batalhas que se desenrolavam no paraíso.

Destacados, então, para servir sob as ordens dos malakins, esses exilados foram reorganizados sob a forma de um esquadrão de combate. Sua tarefa, a partir de agora, seria participar das guerras humanas, disfarçados de meros recrutas, para anotar as façanhas militares, as decisões de campanha, e depois relatá-las aos seus superiores celestes.

Esse esquadrão tomou parte em todos os conflitos do século XX, das sangrentas praias da Normandia ao colapso da União Soviética. Embora muitos não desejassem matar, era exatamente isso o que lhes foi ordenado, e o que infelizmente acabaram fazendo.

Em paralelo às aventuras de Denyel, que se desenrolam cronologicamente de 1944 a 1989, acompanhamos também, no tempo presente, a jornada de Kaira e Urakin em busca do amigo perdido, que caíra nas águas douradas do rio Oceanus, durante a destruição da ilha-fortaleza de Athea em Herdeiros de Atlântida.

ATENÇÃO! Esse livro não é o primeiro da série e a resenha pode conter spoilers! Confira nossas resenhas anteriores dessa série, clicando na capa desejada:

#01 - Herdeiros de Atlântida

“— E o além? Existe um paraíso?
— Não sei. (…) Mas o inferno, ah, esse existe — garantiu, com um toque de morbidez. — E fica na terra.”

Simplesmente não consigo entender como esse segundo livro da série Filhos do Éden ficou parado na minha estante por mais de dois anos! Talvez a maldição do segundo livro? Virei fã de carteirinha do autor depois de ler A batalha do apocalipse em 2010 e fiquei animadíssima ao saber que o universo seria expandido para essa trilogia. Mas entre leituras de cortesia e lançamentos, Anjos da morte acabou ficando parado em casa, mas finalmente achei um tempinho para colocá-lo entre as minhas leituras. Aí bateu o arrependimento de não ter lido essa incrível obra antes.

Antes de começar a falar sobre o enredo, acho legal explicar o que são os anjos da morte. Para isso utilizarei as próprias palavras do Eduardo: “(…) são celestes ordenados a viver na terra como pessoas comuns e a se alistar, de tempos em tempo, nos conflitos humanos, assumindo postos de batalha segundo a determinação dos seus senhores, os malakins.” Esses anjos vinham para a Terra pois o tecido da realidade, a membrana que separa o nosso mundo do mundo dos anjos ficou mais espessa devido a tantas revoluções, poluição e guerras, impedindo que os anjos pudessem enxergar o que estava acontecendo aqui. Em outras palavras, o ser humano foi se distanciando da sua fé e os anjos da morte são enviados para a terra para serem os olhos dos anjos no mundo. Porém tem uma pegadinha aqui: eles não podem interferir nas ações humanas. Só que o mais interessante aqui é que uma vez que esses anjos começam a conviver com humanos eles adquirem vícios e virtudes e acabam se humanizando. É exatamente esse processo que podemos observar na personagem principal, Denyel, e que é tão peculiar e interessante, afinal, imagine um anjo cuja essência é ser um soldado/assassino perfeito começar a se questionar quando é ordenado a dizimar homens.

O tema de fundo do livro são grandes guerras, principalmente a Segunda Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã. Isso, para mim, contou como ponto positivo, pois tenho uma grande fascinação pelo tema, especialmente quando ele é abordado como foi nesse livro. O foco não são as guerras em si, mas as pessoas presas no meio da selvageria e como isso as afeta. Afinal, em situações como essa o ser humano é despido de tudo, sobrando apenas sua essência, seja ela boa ou má. Fato: você vai aprender mais sobre a SGM ao ler esse livro do que em qualquer aula de história que terá na vida, porém não entre em pânico, Spohr sabe muito bem dosar os fatos históricos com a ficção sem deixar a narrativa enfadonha. Fora o fato de que Denyel é uma personagem imensamente carismática.

“— Preciso que me encontre dois velhos amigos — sacou mais trinta dólares. Imagino que os conheça muito bem.
— É? — o sargento achou engraçado. — Sabe os nomes completos?
— Claro — descalçou os coturnos, despiu as meias e começou a massagear os pés. — Um deles se chama Johnnie Walker, e o outro, Jack Daniel’s.”

O foco principal de Anjos da morte não é a narrativa, mas a construção de Denyel. Depois de conhecermos um pouco de sua história e sabermos pelo o que ele passou e viveu durante esse período de guerras podemos começar a entender como ele se tornou o Denyel de Herdeiros de Atlântida.

Porém nem só de guerras é feita essa obra, temos duas linhas do tempo que correm em paralelo ao longo das páginas do livro, uma que segue Denyel em 1944 e outra que narra a linha cronológica “atual” onde acompanhamos a arconte Kaira e seus acompanhantes: o querubim Urakin e o hashmalin Ismael, que estão em uma missão em busca de Denyel, que nessa linha do tempo está desaparecido. E de certa forma essas linhas cronológicas chegam a se cruzar em um dado momento, não posso dizer muito sobre isso sem dar spoilers, mas quem já leu sabe do que estou falando ;)

A mistura de história e ficção é muito grande nesse livro, mas ao final do livro, nos apêndices, o autor explica um pouco o que realmente aconteceu e o que foi trabalho de ficção escrito por ele. Por exemplo, a cidade de Marie-et-Louise é fictícia, mas foi inspirada na real cidade de Mt. Saint Michel; e a Sociedade Thule mencionada no livro realmente existiu e esses ocultistas ansiavam alcançar uma suporta energia que foi nomeada de Vrill, mas o autor usou de licença poética para adaptar essa história para o seu enredo.

Anjos da morte é uma primorosa adição à bibliografia do autor, a cada livro lido, fico ainda mais fã da escrita do Spohr. Me comprometo aqui a não esperar mais 2/3 anos para ler o desfecho da trilogia, Paraíso perdido, que já foi publicado no Brasil. Nem terminei de ler essa trilogia, mas confesso que estou ansiosa e curiosa para saber qual será o próximo trabalho do autor!

“— Quando achamos que os fins justificam os meios, então é hora de rever nossos conceitos. Perseguir cegamente uma meta e ignorar as consequências é o primeiro caminho para a corrupção, para a degradação dos bons valores.”


Aviso Legal: Esse livro foi adquirido pela própria resenhista.

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Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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