sexta-feira, 13/10/2017
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Resenha: “Aceitação”, de Jeff Vandermeer

AceitaçãoLivro: Aceitação (#03)
Série: Comando Sul
Autor: Jeff Vandermeer (@jeffvandermeer)
Páginas: 368
Editora: Intrínseca
Tradução: Braulio Tavares
Resenha por: Bru Fernández
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É inverno na Área X, a misteriosa região selvagem que há trinta anos desafia explicações e repele pesquisadores de expedição após expedição, recusando-se a revelar seus segredos.
Enquanto sua geografia impenetrável se expande, a agência responsável por investigar e supervisionar a região — o Comando Sul — entra em colapso. Uma última e desesperada equipe atravessa a fronteira, determinada a alcançar uma remota ilha que pode conter as respostas que eles tanto procuram. Se falharem, o mundo do lado de fora estará correndo perigo.
Aceitação, o último livro da trilogia, conecta os dois livros anteriores, Aniquilação e Autoridade, em capítulos breves e acelerados, narrados da perspectiva de personagens cruciais. Página após página, os mistérios são aos poucos solucionados, mas as consequências e as implicações dos acontecimentos passados jamais serão menos profundas ou aterrorizantes.

ATENÇÃO! Esse livro não é o primeiro da série e a resenha pode conter spoilers! Confira nossas resenhas anteriores dessa série, clicando na capa desejada:

#01 - Aniquilação #02 - Autoridade

“— Qual é o problema de fazer perguntas?
— Nenhum.
Todos. Depois que uma pergunta é feita, o que parecia certo se torna incerto. Perguntas abrem caminho para a dúvida.”

Acredito que eu nunca tenha lido na minha vida toda uma história tão complexa e instigante como a trilogia Comando Sul. Definir o seu gênero já é complicado, já que no próprio livro nada é exatamente o que parece ser. Não é exatamente uma fantasia e não chega a ser uma distopia, mas mostra um futuro cruel para a humanidade. É um mistério de proporções apocalípticas, mas sem heroínas fortes e determinadas como Katniss e Tris, nas quais o leitor confia para consertar os erros. Por falta de uma definição melhor podemos considerar essa trilogia uma ficção científica ecológica.

Antes de falar sobre Aceitação, vamos fazer uma pequena recapitulação dos livros anteriores. Em Aniquilação, primeiro livro da série, temo o nosso primeiro contato com a Área X. Acompanhamos a bióloga – quanto menos as personagens souberem sobre as outras, menos chances elas têm de ficarem umas contra as contras durante a visita à Área X, por isso a falta de nomes – em sua jornada para conseguir ser aceita na nova expedição para a Área X, depois de ter perdido o seu marido na expedição anterior. Já em Autoridade, acompanhamos as tentativas falhas da nova personagem, Controle – mais uma vez, a falta de nomes -, o novo diretor interino do Comando Sul, que investiga a Área X, de organizar a casa depois do sumiço da última expedição (a da bióloga).

Se você acha esquisito acompanhar/visualizar na mente personagens que não possuem nomes, acredite, é pior quando o autor resolve jogar uma mistura de nomes para uma só personagem ou quando uma personagem não é mais a mesma personagem… é aí que a sua cabeça começa mesmo a dar nós para tentar compreender o que raios está acontecendo na narrativa. Ao tirar os nomes das personagens e tirar o leitor da sua zona de conforto, o autor tira também a identidade desses seres humanos, exatamente o que acontece quando essas personagens chegam na Área X.

Aceitação é dividido por narrativas do ponto de visto de quatro diferentes personagens: A diretora, que é narrador de forma inusitada, como se a personagem fosse o próprio leitor, dando uma sensação de maior imersão no enredo; O faroleiro, que aparece na enigmática fotografia no farol da Área X, logo no primeiro livro e é uma personagem muito mais importante do que aparenta ser; Controle, o último diretor do Comando Sul, John Rodriguez; e a Ave Fantasma, a bióloga que não é a bióloga, mas sim uma cópia com memórias. A divisão de capítulos é bem demarcada e esses diferentes pontos de vista enriquecem a história. Confesso que meu POV menos favorito foi o do Controle.

Meu maior medo quando comecei a ler a série era justamente que, assim como na série de TV Lost, o deslindamento dos mistérios não fossem suficientes para saciar a minha curiosidade. Mas acontece que Vandermeer não dá, em momento algum, uma resposta direta. É tudo subjetivo, tudo depende da atenção e da percepção do leitor. E algumas dessas respostas chegam a ser surpreendentemente geniais.

Muitas perguntas ficaram em aberto, e claro, isso foi frustrante. Entretanto, de certo modo, essa frustração acabou ajudando para tornar a série tão especial pra mim – e acredito que para muitos outros leitores. Terminei minha leitura com um grau de satisfação enorme, mesmo com mil perguntas fervendo na cabeça.

“E ainda há uma pergunta que não foi respondida.
Uma que ficará se repetindo até que você tenha dado todas as respostas.”

Pode não parecer a princípio, mas o autor faz uma crítica dura ao estilo de vida atual do ser humano, principalmente a forma como acabamos com a natureza. E ele ainda mostra uma forma apavorante de como ela pode clamar seu espaço de volta. Uma série despida de heróis, com personagens reais e solitárias, recheada de mistérios e revelações surpreendentes. Acredite, você precisa conhecer a história do Comando sul. E se as minhas resenhas não te convenceram, talvez o Rei do Medo te convença:

“Assustador e fascinante.” — Stephen King


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

Um comentário

  1. Amei a sua resenha. Terminei de ler esse livro hoje e concordo com muitas das coisas que você diz. Incrível!

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