sexta-feira, 15/12/2017
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Resenha: “Loney”, de Andrew Michael Hurley

LoneyLivro: Loney
Autor: Andrew Michael Hurley
Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Tradução: Renato Marques de Oliveira
Resenha por: Bru Fernández
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Quando os restos mortais de uma criança são descobertos durante uma tempestade de inverno numa extensão da sombria costa da Inglaterra conhecida como Loney, Smith é obrigado a confrontar acontecimentos terríveis e misteriosos ocorridos quarenta anos antes, quando ainda era criança e visitou o lugar.

À época, a mãe de Smith arrastou a família para aquela região numa peregrinação de Páscoa com o padre Bernard, cujo antecessor, Wilfred, morrera pouco tempo antes. Cabia ao jovem sacerdote liderar a comunidade até um antigo santuário, onde a obstinada sra. Smith crê que irá encontrar a cura para o filho mais velho, um garoto mudo e com problemas de aprendizagem.

O grupo se instala na Moorings, uma casa fria e antiga, repleta de segredos. O clima é hostil, os moradores do lugar, ameaçadores, e uma aura de mistério cerca os desconhecidos ocupantes de Coldbarrow, uma faixa de terra pouco acessível, diariamente alagada na alta da maré. A vida dos irmãos acaba se entrelaçando à dos excêntricos vizinhos com intensidade e complexidade tão imperativas quanto a fé que os levou ao Loney, e o que acontece a partir daí se torna um fardo que Smith carrega pelo resto da vida, a verdade que ele vai sustentar a qualquer preço.

Com personagens ricos e idiossincráticos, um cenário sombrio e a sensação de ameaça constante, Loney é uma leitura perturbadora e impossível de largar, que conquistou crítica e público. Uma história de suspense e horror gótico, ricamente inspirada na criação católica do autor, no folclore e na agressiva paisagem do noroeste inglês.

“— A Mamãe quer o seu bem — falei. — Ela só está preocupada, com medo de que você não melhore. E o medo pode levar uma pessoa a fazer coisas esquisitas, sabe?”

É impossível iniciar essa resenha sem antes elogiar o MARAVILHOSO trabalho gráfico de Loney. A edição da Intrínseca é de capa dura, com uma jacket deslumbrante e assombrosa, já remetendo ao conteúdo do livro, além da equipe de marketing ter caprichado no kit enviado para site. Impecável.

Mas vamos ao enredo.

Loney chegou até mim de pára-quedas, não sabia nada sobre o livro, nem sobre o autor, muito menos sobre o que se tratava o livro. Mas só de ler os blurbs (trechos promocionais escritos geralmente por autores ou grandes veículos para promover uma obra) de vários autores que eu gosto na contra-capa, como Stephen King e Jeff Vandermeer, já fiquei animada para iniciar a minha leitura.

A narrativa acompanha a história de uma família muito religiosa. A obra é narrada em primeira pessoa pelo irmão mais velho de Andrew/Hanny, cujo nome desconhecemos. Aprendemos que os irmãos viveram sua adolescência nos anos 70 e eles costumavam viajar com a família e outros conhecidos para a região do Loney para peregrinações e cultos, liderados pelo padre Wilfred. A forma como o Loney é descrita soa desoladora, uma natureza bela, porém selvagem e fria, com moradores fechados e esquisitos, o oposto do que esperamos de uma cidade do interior onde geralmente as pessoas são alegres e simpáticas. Apenas com essa ambientação o autor consegue dar o toque de suspense e horror para sua narrativa.

Com o passar dos anos o tão estimado padre Wilfred acaba falecendo (de uma forma um tanto quanto peculiar, já que o padre mudou muito suas maneiras e personalidade antes de morrer) e um novo padre vindo da Irlanda do Norte é enviado para a assumir a paróquia, o padre Bernard. Acontece que Bernard é um padre mais moderno e liberal do que Wilfred era e isso gera um grande atrito, principalmente com Esther Smith, a mãe do narrador. Ela tenta servir de guia para o novo padre, explicando antigos rituais e a forma como o antigo padre costumava a liderar seu rebanho. A intenção da personagem pode ser parecer boa, mas ela acabou se tornando a personagem mais irritante e enfadonha da história para mim. Para alguém tão religiosa e elevada espiritualmente a Sra. Smith é uma pessoa que adora julgar e se sentir superior aos outros, principalmente ao padre Bernard.

Além disso, ela tenta impôr a crença em toda a família. Talvez sua fé fervorosa venha do medo que ela sente por nunca conseguir “recuperar” seu filho. O irmão mais novo do narrador, Andrew, ou Hanny, seu apelido, é um jovem mudo, com temperamento muitas vezes infantil pra sua idade. Já o narrador é de certa forma forçado pela mãe a ser coroinha na igreja, apesar de não ter o sonho de se tornar padre, o narrador se acomoda com as expectativas da mãe para o seu futuro. A única preocupação dele é proteger Hanny do mundo, apesar de perder um pouco a paciência com ele por algumas vezes.

É nesse cenário confuso e envolto em segredos, fé, intrigas, ciúmes, inveja e o oculto que a narrativa se desenvolve, mostrando as fraquezas humanas através das personagens muito bem construídas pelo autor, em uma viagem organizada pelas personagens de volta ao Loney. A primeira impressão que o enredo me passou foi a de confusão. Não conseguia imaginar onde o autor iria chegar com a história que ele estava me apresentando, estou inclusive com dificuldades de descrever a leitura nessa resenha. Quando menos eu esperava, entre uma virada de página e outra, me vi apegada aos personagens e aos seus mistérios e segredos.

Definitivamente não é um livro que vai agradar a maioria esmagadora das pessoas. Loney não é um livro direto e deixa muito de sua história nas entrelinhas, para que o próprio leitor preencha as lacunas da forma que achar mais pertinente. Um livro diferente com uma narrativa incomum, mas que fica enraizada no leitor com um efeito que demora para passar, deixando suas marcas no leitor.

“Ele havia compreendido o que eu já sabia sobre a Mamãe fazia um bom tempo — que se alguma coisa cedesse, se algum ritual deixasse de ser cumprido ou algum método fosse abreviado por conveniência, então a fé dela desmoronaria e se reduziria a estilhaços.

Acho que foi aí que ele começou a sentir pena dela.”


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

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Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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