sexta-feira, 15/12/2017
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Resenha: “Ana de Amsterdam”, de Ana Cássia Rebelo

Ana de AmsterdamLivro: Ana de Amsterdam
Autor: Ana Cássia Rebelo
Editora: Biblioteca Azul
Páginas: 192
Tradução:
Resenha por: Monique Marie
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Ana Cássia Rebelo é uma mulher com suas horas bastante ocupadas, dividindo seu tempo entre o emprego como advogada numa repartição, os três filhos ainda pequenos e um casamento já desgastado. Nessa rotina, que oscila sempre entre o tédio da segurança e o desejo do inesperado, Ana encontra lugar para escrever. E foi assim que surgiu, em 2006, o blog Ana de Amsterdam, em que ela ia registrando esse movimento pendular entre pequenas vitórias e grandes angústias. Das postagens do blog, imensamente literárias apesar de intrinsecamente efêmeras, o jornalista e crítico português João Pedro Jorge pôde organizar uma obra que funciona como diário íntimo, em que os pequenos textos são datados, e vão desenhando uma personagem rica, um tanto misteriosa, capaz de confundir o leitor entre uma doçura maternal e uma rascante agressividade.

Com um histórico depressivo, muito inteligente e sensível, o que vemos na sucessão dos dias dessa narrativa fragmentada é o retrato subjetivo da chamada mulher moderna, esse ser quase indefinível. Ana sente desejo e nega-o, ama os filhos, mas se sente sobrecarregada, se apega à vida por detalhes, e encontra o sentido perdido no cotidiano doloroso em um pôr do sol bonito numa cidade indiana. Com parte da família em Goa, essa terra misteriosa em que a Índia fala a língua portuguesa, Ana desenha no país distante a possibilidade de descobertas – como antigos navegadores buscavam especiarias. A mesma busca se dá por uma sexualidade crua, em que não há tabus, e a frigidez, a masturbação, o desejo doente são temas tratados corriqueiramente, conceitualmente e na linguagem – limpa, crua, direta.

O resultado desse conjunto coeso de pequenas narrativas é um livro escrito em uma prosa brilhante, que se a filia a nomes como Sylvia Plath e Virginia Woolf, no que todas têm de prosadoras poderosas e marcantes – também finca o pé em certa tradição nacional portuguesa, e o conjunto de fragmentos do livro lembra o Livro do desassossego, de seu conterrâneo mais ilustre.

Que o leitor se embrenhe nessa prosa primorosa. Que descubra a literatura contemporânea portuguesa, e que, atentamente, descubra o poder da narrativa feminina.

“Uma das vozes mais aguardadas no panorama editorial português. As suas palavras não desiludem a expectativa gerada.” — O PÚBLICO

“Não me importo que a tristeza volte. Se vier só, abro-lhe a porta, deixo-a instalar-se dentro de mim. É o desespero que me assusta.”

Li algumas resenhas para ver se todos tinham achado a mesma coisa, mas acredito que quem sofre de algum distúrbio vê o livro de uma forma um pouco diferente das pessoas que felizmente não sofrem.

Ao contrário do que li e do que se fala na sinopse, a personagem do livro (acredito que por mais que seja um diário não era 100% ela) não é tão forte como a descrevem. O problema é que tenho uma opinião um tanto quanto pesada em relação ao suicídio e ela bate forte nessa tecla durante todos os anos relatados no livro.

A narrativa é de fácil compreensão, apesar de ser o português de Moçambique ele não causa qualquer dificuldade de entendimento. O diário é escrito de uma forma um pouco diferente de diários que estamos acostumados e principalmente da forma que faço os meus (sim, aos 32 anos eu ainda escrevo diários). Ana é extremamente detalhista em todos os pontos, seja para relatar o seu pensamento no momento (quando quer falar de seu ex-marido ou de seu corpo) ou para contar o que está vendo. Temos nesse livro o relato de anos de sua vida com um ponto de vista um tanto quanto diferente do que estamos acostumados a ler.

Acredito que pela depressão ela vê o mundo de uma forma negativa, ela narra um casal feliz se beijando apenas destacando as partes negativas do que vê e lembrando de como seria se no lugar de uma das mulheres estivesse um homem, seu ponto fraco desde quando não conseguiu sentir qualquer tipo de prazer com seu marido. Ela sempre destaca as mulheres mais feias que vê, sempre fala de mulheres gordas (o que demonstra o complexo que ela tem com seu próprio corpo), comenta sobre as ruas mais feias e claro, como odeia sentir o vazio e a solidão.

Não vi mudança no modo de encarar a vida ao passar dos anos, apenas as mudanças que ela passou que eram incontroláveis. Ponto positivo fica para os filhos, que apesar de chamarem a mãe de louca por várias vezes nunca a abandonaram e sempre demonstraram amor e preocupação.

Não aconselho a leitura do livro para quem passa por depressão ou borderline e ainda não aprendeu a como lidar com essa situação, talvez as crises e as tentativas de suicídio sejam um pouco forte para quem passa por isso, caso você já consiga encarar essa situação de outra forma é um bom livro para se conhecer, afinal de contas ela passou por muita coisa e estava lá, cambaleando, caindo e levantando.

Antes de terminar, quero dizer que em muitas partes do livro eu balancei, principalmente quando ela relata suas idas ao psiquiatra e o quanto ela não gosta deles. Querida Ana, te entendo e me sinto mais feliz em saber que não sou a única que troca de psiquiatra e não se adapta com eles. ;)


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

Sobre Monique Marie

Publicitária frustrada com o pouco dinheiro da área e admiradora de tudo que envolve a política. Gosta de seriados que tenham serial killers, filmes infantis, fanática por futebol e F1, além de tentar competir com o Dr. Reid (Criminal Minds) quem lê mais rápido. Geralmente não gosta de ler o que está “na moda”, adora indicações e ainda acredita que muitos livros se vendem pela capa. Não se separa de seu amigo rivotril e escreve no mínimo um texto por dia.

Um comentário

  1. José Andrade

    Obrigado pelos comentários, apenas um reparo, o texto não está escrito em português de Moçambique.

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