quarta-feira, 11/10/2017
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Resenha: “Faca de água”, de Paolo Bacigalupi

Faca de águaLivro: Faca de água
Autor: Paolo Bacigalupi (@paologabigalupi)
Editora: Intrínseca
Páginas: 400
Tradução: Alexandre Raposo
Resenha por: Bru Fernández
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Num futuro árido e tumultuado, em que a água ganhou o status de commodity mais valiosa, o direito de uso das fontes e dos rios é alvo de disputas ferrenhas. Uma guerra entre governos, órgãos públicos e empresários, na qual vale tudo. Enquanto advogados e burocratas armam-se com infinitos processos judiciais, mercenários e militares subjugam proprietários de terra, implodem estações de tratamento e interrompem o abastecimento de regiões inteiras.

Nesse cenário surge Angel, um faca de água, um dos muitos mercenários com a missão de cortar e desviar o fornecimento de água a mando de quem paga mais. Lucy é uma jornalista premiada que decidiu revelar para o mundo a realidade da Grande Seca. Maria é uma jovem cuja vida foi destruída pelos efeitos das mudanças climáticas.

Quando o direito de usar a água significa dinheiro para alguns e sobrevivência para outros, o que esses três personagens não sabem é que seu encontro é um marco que poderá mudar tudo. Um novo fiel da balança que sempre pendeu para o mesmo lado.

“— As pessoas só vivem realmente quando estão prestes a morrer — disse ele. — Antes disso, é um desperdício. Você não aprecia como é bom até estar realmente na merda.”

Sabe quando o livro tem uma capa maravilhosa, um trabalho editorial todo detalhado, tem uma sinopse intrigante e além de tudo isso te conquista pelo blurb? Foi o que aconteceu comigo e Faca de água. Apesar de nunca ter lido Laranja Mecânica e livros do William Gibson – obras a qual o livro de Paolo é comparado – são histórias que estão presentes na minha eterna lista de Quero ler um dia.

O tema de Faca de água é futurista, mas estamos falando de um futuro que pode não estar tão longe assim. No universo da narrativa o mundo está no meio de uma enorme seca, a água se tornou um bem extremamente valioso e várias cidades foram praticamente erradicadas do mapa pela falta d’água. E como sempre, controla a água quem tem poder e dinheiro.

O início da leitura foi um pouco devagar, pois o autor segue várias narrativas diferentes: a do carismático mercenário Angel que teve uma segunda chance de se dar bem no mundo e sabe jogar o jogo como ninguém mais sabe; a história da ávida jornalista Lucy – de longe a minha personagem favorita, a segunda é Angel – que tem paixão pela profissão e acredita na necessidade de expôr a verdade, independente das consequências; e Maria, uma jovem que tinha tudo e perdeu tudo e um pouco mais com a seca, agora vive uma vida miserável e acaba fazendo escolhas que pioram a sua situação. Porém, obviamente, essas narrativas todas se entrelaçam e é aí que a história começa a ficar boa.

O tema central está baseado no problema da mudança climática e as consequências absurdas que isso pode vir a causar para nosso planeta e funciona como grandes críticas ao que fazemos hoje, em como estamos planejando o futuro. O detalhamento da descrição do clima, seus impactos e o aprofundamento em antigos direitos de água sobre qual estado tem direito sobre qual rio foram um pouco cansativos, mas qualidade das personagens, suas motivações e dos diálogos entre elas preenchem a obra de forma espetacular. O autor consegue retratar extremamente bem o inferno selvagem que o mundo se tornou. Foi assombroso pensar que podemos chegar a esse estado no futuro.

Gostei da forma como Paolo mostrou que o problema vai muito além da simples escassez de água. Isso se torna um problema político e socioeconômico. Com um “produto” tão vital para todos em falta parece que a humanidade retrocedeu para a Idade Média. Entre os mais altos escalões e ricos, informação é poder, mas também pode significar a morte. Entre os pobres, a sobrevivência é uma luta diária e muitas jovens acabam se prostituindo para sobreviver ou para conseguirem uma vida melhor. Como julgá-las? Um problema desencadeia o próximo e a bola de neve fica cada vez maior, sem dar indicações de que vai diminuir.

Uma narrativa com tom apocalíptico que não faz uso de vírus mortais, bombas nucleares e até mesmo zumbis. Talvez por isso seu enredo seja tão assustador: é uma realidade muito próxima de nós. Vale muito a leitura e a reflexão.

“— Não são as mentiras. É o silêncio. O silêncio é que me incomoda. Todas as coisas que não se dizem. Todas as palavras que não se escrevem.”


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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