quarta-feira, 15/11/2017
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Resenha: “Jantar secreto”, de Raphael Montes

Jantar secretoLivro: Jantar secreto
Autor: Raphael Montes (@montesraphael)
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 360
Tradução:
Resenha por: Bru Fernández
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Um grupo de jovens deixa uma pequena cidade no Paraná para viver no Rio de Janeiro. Eles alugam um apartamento em Copacabana e fazem o possível para pagar a faculdade e manter vivos seus sonhos de sucesso na capital fluminense. Mas o dinheiro está curto e o aluguel está vencido. Para sair do buraco e manter o apartamento, os amigos adotam uma estratégia heterodoxa: arrecadar fundos por meio de jantares secretos, divulgados pela internet para uma clientela exclusiva da elite carioca. No cardápio: carne humana. A partir daí, eles se envolvem numa espiral de crimes, descobrem uma rede de contrabando de corpos, matadouros clandestinos, grã-finos excêntricos e levam ao limite uma índole perversa que jamais imaginaram existir em cada um deles.

“A perversão não tem limites. O ser humano é um bicho escroto por natureza.”

Se tivesse que descrever em um sentimento como foi a experiência de ler Jantar Secreto, do Raphael Montes, sem dúvidas eu escolheria o sentimento de surpresa. Esse foi o primeiro contato que tive com uma obra do Raphael e agora não vejo a hora de completar a minha coleção para adicionar à minha estante de livros nacionais favoritos.

Lembro que fiquei com muita vontade de ler esse livro quando ele saiu, mas devido à “pilha de compromissos de leitura” só consegui colocar minhas mãos no meu exemplar recentemente. Devorei a história de Dante, o narrador principalm maravilhado com a nova independência de morar em uma cidade como o Rio; Leitão, o amigo gordo, brincalhão e hacker que faz dinheiro aplicando golpes na internet e não faz mais nada além de comer e assistir a vídeos pornôs, mas que é aparentemente muito religioso e tem um relacionamento carinhoso (e esquisito) com a mãe; Miguel, o mais esforçado e correto dos amigos, estudante de medicina e único com namorada fixa no início da narrativa; e Victor Hugo, de longe a personagem mais asquerosa da história: machista, orgulhoso e egoísta – que mistura hein.

Esses quatro amigos paranaenses que trocaram a pacata cidadezinha de interior, Pingo d’Água, pela badalada e turística cidade do Rio de Janeiro ainda jovens, com um mundo pela frente para desbravar e conquistar, conseguiram alugar um bom apartamento, bem localizado a um bom preço para dividir entre eles. Mas, quem já passou pelos 20 e poucos anos sabe (senil alert!) que nem tudo são flores e as coisas começam a apertar, a convivência desgasta um pouco, o aluguel atrasa – pelo motivo mais absurdo do mundo, mas que é verossímil e não só pode como deve acontecer, e muito, por aí. Então os 4 amigos se encontram numa grande enrrascada, correndo risco de despejo, devendo mais de 20 mil reais, e precisam de uma solução urgente. Eles então resolvem se aproveitar da presença de um renomado chef entre eles, Hugo, e promover jantares de luxo em casa, cobrando preços altos e, aos poucos, juntar a grana do aluguel atrasado.

Acontece que o responsável pelo cadastro foi Leitão, o hacker, e com o seu humor deturpado ele resolveu fazer uma brincadeira e afirmar que no jantar organizado por ele e seus amigos seria feito de carne humana, cobrando um preço exorbitante de cada convidado. É de se imaginar que quem lesse ficaria revoltado com uma proposta dessas, mas existe todo o tipo de pessoas nesse mundo e, claro, várias pessoas se interessam pela proposta deles. Eles retiram a proposta do ar com medo da polícia, mas, antes disso, Leitão salva a base de dados com os contatos interessados no jantar peculiar deles. Então temos o impasse: eles podem simplesmente esquecer a proposta e ralar muito para juntar a grana para pagar o aluguel, ou podem dar um jantar preparado com carne humana, ou carne de gaivota, como o autor nos apresenta uma história bem peculiar logo no início da narrativa. Afinal, um jantar com tal iguaria daria para pagar a dívida de uma vez só e ainda sobra um dinheirinho.

“Aqui é proibido apenas observar. Você deve participar, está nas regras. Da primeira vez pode até dar certo medo ou peso na consciência, mas garanto que depois de uma garfada vocês não vão querer saber de outra coisa.”

Vi muitos leitores afirmando que a motivação das personagens foi fraca, mas eu não achei. A situação pode até ser inverossímil para nós porque simplesmente não nos imaginamos fazendo um jantar de carne humana para pagar o aluguel, ainda mais com a opção de poder recorrer aos pais que são cheios da grana, como o protagonista Dante. Mas desde o momento que eles se propõem a ir em frente com o jantar, uma barreira moral sem volta é derrubada. Há quem tenha a consciência pesada pelo que fizeram, há quem seja ganancioso o suficiente para ignorar o lado moral da questão e focar no lucro. Não sei dizer o que é mais assustador na narrativa de Jantar Secreto: pessoas com vontade, e até mesmo viciadas, em comer carne humana ou existirem pessoas dispostas a preparar o prato.

Mas o que mais me surpreendeu mesmo foi a escrita do autor. A escrita de Raphael é tão crua, bem narrada e detalhada que parece texto de um autor consagrado há décadas. E pensar que ainda existem pessoas que torcem o nariz pra literatura nacional… percam esse preconceito e rápido. Temos uma nova leva de autores contemporâneos excelentes e Raphael Montes com certeza ocupa um lugar no topo entre eles e já foi publicados em outros países, fazendo grande sucesso no exterior também.

Outro detalhe que eu também adorei foi a quantidade de poesia de porta de banheiro que o autor inseriu de forma genial ao longo da narrativa. Os autores me conquistam justamente por essas minúcias em seus textos e, nesse quesito, o Raphael merece nota mil. E, sinceramente, não poderia imaginar melhor desfecho para o livro. Tá esperando o que pra ler Jantar Secreto?

“Eis uma lição para a vida: quando alguém começar a uma conversa com “E aí, sumido?” ou vai pedir favor ou quer trepar.”


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

Sobre Bru Fernández

Formada em Letras, trabalha como Revisora e Tradutora em uma agência publicitária e preenche suas horas vagas assistindo a seriados, filmes e partidas de futebol, vôlei, basquete e ice hockey, além de ouvir música, ir a shows e, claro, ler. Não curte chick-lits e prefere os thrillers, policiais, YA e fantasia. Nunca sai de casa sem guarda-chuva e um livro na bolsa, afinal nunca se sabe quando irá chover ou surgir uma fila/trânsito em São Paulo.

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