quinta-feira, 27/07/2017
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Resenha: “Tudo o que nunca contei”, de Celeste Ng

Tudo que nunca conteiLivro: Tudo o que nunca contei
Autor: Celeste Ng (@pronounced_ing)
Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Tradução: Julia Sobral Campos
Resenha por: Juh Claro
Comprar: Amazon Cultura Saraiva

Na manhã de um dia de primavera de 1977, Lydia Lee não aparece para tomar café. Mais tarde, seu corpo é encontrado em um lago de uma cidade em que ela e sua família sino-americana nunca se adaptaram muito bem.

Quem ou o que fez com que Lydia — uma estudante promissora de 16 anos, adorada pelos pais e que com frequência podia ser ouvida conversando alegremente ao telefone — fugisse de casa e se aventurasse em um bote tarde da noite, mesmo tendo pavor de água e sem saber nadar? À medida que a polícia tenta desvendar o caso do desaparecimento, os familiares de Lydia descobrem que mal a conheciam. E a resposta surpreendente também está muito abaixo da superfície.

Conforme analisa e expõe os segredos da família Lee — os sonhos que deram lugar às decepções, as inseguranças omitidas, as traições e os arrependimentos —, Celeste Ng desenvolve um romance sobre as diversas formas com que pais, filhos e irmãos podem falhar em compreender uns aos outros e talvez até a si mesmos. Uma observação precisa e dolorosa do fardo que as expectativas da família representam e da necessidade de pertencimento. Um romance que explora isolamento, sucesso, questões de raça, gênero, família e identidade e permanece com o leitor bem depois de virada a última página.

“Lydia está morta. Mas eles ainda não sabem disso. Dia 3 de maio de 1977, seis e meia da manhã, ninguém sabe nada a não ser por este fato inofensivo: Lydia está atrasada para o café da manhã.”

É com esta frase que iniciamos a leitura de Tudo o que nunca contei e conhecemos a família Lee. Estamos em Ohio, Estados Unidos, em uma época de grande segregação racial: 1977. A família Lee é composta por Marilyn (americana), James (americano, porém filho de pais chineses), Nath (o filho mais velho), Lydia (a filha favorita) e Hannah (a filha-invisível).

Como você provavelmente já sabe, nesta época a sociedade era bem machista e racista. As mulheres eram criadas com a intenção de serem boas esposas e mães, somente os homens eram vistos com bons olhos no trabalho e famílias com misturas de “raças” sofriam um grande preconceito. Apesar disso, Marilyn sempre quis desviar do futuro que a mãe queria para ela: nada de encontrar um marido rico, ficar em casa cozinhando ovos de todos os jeitos ou ser uma boa mãe para seus quinhentos filhos. Ela queria ser médica e iria estudar e ralar para isso.

Bem, ao menos era o que ela pensava, até conhecer James, seu professor. A paixão foi tão instantânea que Marilyn acabou engravidando e casando-se com James – enfrentando todos os preconceitos e rejeições, inclusive de sua mãe. Precisando cuidar de uma criança, Marilyn acabou deixando os estudos de lado e passou a ser “dona de casa”. Logo em seguida veio Lydia e, com o falecimento da mãe de Marilyn, ela voltou a pensar em muitas coisas do passado que ela acabou deixando para trás para conviver com a sua família.

A narrativa não segue uma linha do tempo, em uma página estamos vendo o desenrolar do mistério da morte de Lydia e na seguinte somos jogados de volta ao passado para entender como tudo começou – o que ajuda a desvendar os segredos e sentimentos de Lydia, mesmo quando ela ainda não era nem nascida. Acontecimentos do passado são relatados por todos os integrantes da família, de James a Hannah, e vamos montando um quebra-cabeça para conhecer a história de Lydia, que não teve a chance de se apresentar para o leitor.

Fica muito clara a obsessão de James e, principalmente, de Marilyn sobre a Lydia. A mãe quer que a filha seja o que ela não conseguiu ser, que seja diferente dos padrões, inteligente, tenha uma carreira e seja a melhor de todos. James quer que ela seja popular, para provar que não importa se é americano puro, sino-americano ou o que quer que seja – ele sabe que ela é uma menina doce e sua ascendência não será um empecilho para todos gostarem dela.

Mas livros de presente, notas máximas nas provas e telefonemas falsos dos amigos não fazem com que Lydia se sinta feliz e enturmada. Jack, colega de classe e vizinho, até tenta entrar na vida dela, mas precisa ter muito cuidado ao se aproximar com Nath por perto. Jack é um caso de amor e ódio, em momentos você o admira e em outros tem vontade de dar uns bons tapas, mas ele tem um papel muito importante na história toda. Aliás, será que ele poderia estar envolvido com o incidente da morte de Lydia?

O lado “policial” da trama não é muito explorado, uma vez que a intenção aqui é mostrar realmente o lado familiar – então não espere nenhum thriller ou mistério policial, porque não é nada disso. O livro é totalmente voltado para o drama familiar, a influência de escolhas e o quanto as aparências nem sempre são o que parece.

O tempo todo ficamos divididos entre um assassinato ou um suicídio. Marilyn crê que sua filha querida e adorada não teria porque se matar, com certeza alguém fez com que Lydia fosse até o lago – ela tem pavor de água e não sabe nadar! James já não tem tanta certeza e tenta de tudo para desvendar os segredos da filha. Nath tem um pé atrás com Jack, certo de que ele tem algo a ver com tudo isso. E Hannah passa despercebida por todos, mas tem ótimas teorias e nos mostra seu lado observador e todos os segredos que guardou para si.

O livro caiu como uma luva após assistir à série “Os 13 Porquês”, por semelhanças óbvias. Apesar da grande diferença de períodos em que elas se passam, as histórias trazem os mesmos questionamentos: realmente conhecemos a pessoa que está ao nosso lado? Deixamos passar algum sinal de que ela precisava de ajuda? Algum ato meu acabou magoando-a e não percebi?

Após finalizar a leitura, assisti ao filme “Estrelas além do tempo”, em que a segregação racial e o machismo são amplamente expostos dentro dos Estados Unidos. Apesar da família Lee ter apenas olhos puxados e não serem negros, a discriminação chega a ser muito parecida pelos que se dizem “americanos puros”. Gostaria de dizer que felizmente muito tempo se passou e as coisas mudaram, mas sabemos que não é bem assim. Livros e filmes que tratam deste tema te fazem abrir os olhos para alguns problemas que talvez passem despercebidos, mas que precisam de alguma solução urgente – ou ao menos de alguma empatia da sociedade.

Talvez pela resenha já tenha ficado claro, mas vale ressaltar: leitura recomendadíssima. Novamente, apesar da trama se passar há 40 anos, o tema é bem atual e a escrita de Celeste envolve de maneira natural; o que faz com que a leitura flua muito bem.


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.

Sobre Juh Claro

26 anos, formada em Design Digital, cursando MBA em Gerenciamento de Projetos, trabalha como Analista de Projetos em uma multinacional de BPO (aka Contact Center) de segunda à sexta e divide os seus finais de semana e horas vagas entre leituras, shows, viagens e jogos de futebol, quase sempre acompanhada do noivo.

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