13 de junho de 2017
Postado por: Juh Claro @ Arquivado em: Resenhas Fora de Série

Tudo que nunca conteiLivro: Tudo o que nunca contei
Autor: Celeste Ng (@pronounced_ing)
Editora: Intrínseca
Páginas: 304
Tradução: Julia Sobral Campos
Resenha por: Juh Claro
Comprar: Amazon Cultura Saraiva

Na manhã de um dia de primavera de 1977, Lydia Lee não aparece para tomar café. Mais tarde, seu corpo é encontrado em um lago de uma cidade em que ela e sua família sino-americana nunca se adaptaram muito bem.

Quem ou o que fez com que Lydia — uma estudante promissora de 16 anos, adorada pelos pais e que com frequência podia ser ouvida conversando alegremente ao telefone — fugisse de casa e se aventurasse em um bote tarde da noite, mesmo tendo pavor de água e sem saber nadar? À medida que a polícia tenta desvendar o caso do desaparecimento, os familiares de Lydia descobrem que mal a conheciam. E a resposta surpreendente também está muito abaixo da superfície.

Conforme analisa e expõe os segredos da família Lee — os sonhos que deram lugar às decepções, as inseguranças omitidas, as traições e os arrependimentos —, Celeste Ng desenvolve um romance sobre as diversas formas com que pais, filhos e irmãos podem falhar em compreender uns aos outros e talvez até a si mesmos. Uma observação precisa e dolorosa do fardo que as expectativas da família representam e da necessidade de pertencimento. Um romance que explora isolamento, sucesso, questões de raça, gênero, família e identidade e permanece com o leitor bem depois de virada a última página.

“Lydia está morta. Mas eles ainda não sabem disso. Dia 3 de maio de 1977, seis e meia da manhã, ninguém sabe nada a não ser por este fato inofensivo: Lydia está atrasada para o café da manhã.”

É com esta frase que iniciamos a leitura de Tudo o que nunca contei e conhecemos a família Lee. Estamos em Ohio, Estados Unidos, em uma época de grande segregação racial: 1977. A família Lee é composta por Marilyn (americana), James (americano, porém filho de pais chineses), Nath (o filho mais velho), Lydia (a filha favorita) e Hannah (a filha-invisível).

Como você provavelmente já sabe, nesta época a sociedade era bem machista e racista. As mulheres eram criadas com a intenção de serem boas esposas e mães, somente os homens eram vistos com bons olhos no trabalho e famílias com misturas de “raças” sofriam um grande preconceito. Apesar disso, Marilyn sempre quis desviar do futuro que a mãe queria para ela: nada de encontrar um marido rico, ficar em casa cozinhando ovos de todos os jeitos ou ser uma boa mãe para seus quinhentos filhos. Ela queria ser médica e iria estudar e ralar para isso.

Bem, ao menos era o que ela pensava, até conhecer James, seu professor. A paixão foi tão instantânea que Marilyn acabou engravidando e casando-se com James – enfrentando todos os preconceitos e rejeições, inclusive de sua mãe. Precisando cuidar de uma criança, Marilyn acabou deixando os estudos de lado e passou a ser “dona de casa”. Logo em seguida veio Lydia e, com o falecimento da mãe de Marilyn, ela voltou a pensar em muitas coisas do passado que ela acabou deixando para trás para conviver com a sua família.

A narrativa não segue uma linha do tempo, em uma página estamos vendo o desenrolar do mistério da morte de Lydia e na seguinte somos jogados de volta ao passado para entender como tudo começou – o que ajuda a desvendar os segredos e sentimentos de Lydia, mesmo quando ela ainda não era nem nascida. Acontecimentos do passado são relatados por todos os integrantes da família, de James a Hannah, e vamos montando um quebra-cabeça para conhecer a história de Lydia, que não teve a chance de se apresentar para o leitor.

Fica muito clara a obsessão de James e, principalmente, de Marilyn sobre a Lydia. A mãe quer que a filha seja o que ela não conseguiu ser, que seja diferente dos padrões, inteligente, tenha uma carreira e seja a melhor de todos. James quer que ela seja popular, para provar que não importa se é americano puro, sino-americano ou o que quer que seja – ele sabe que ela é uma menina doce e sua ascendência não será um empecilho para todos gostarem dela.

Mas livros de presente, notas máximas nas provas e telefonemas falsos dos amigos não fazem com que Lydia se sinta feliz e enturmada. Jack, colega de classe e vizinho, até tenta entrar na vida dela, mas precisa ter muito cuidado ao se aproximar com Nath por perto. Jack é um caso de amor e ódio, em momentos você o admira e em outros tem vontade de dar uns bons tapas, mas ele tem um papel muito importante na história toda. Aliás, será que ele poderia estar envolvido com o incidente da morte de Lydia?

O lado “policial” da trama não é muito explorado, uma vez que a intenção aqui é mostrar realmente o lado familiar – então não espere nenhum thriller ou mistério policial, porque não é nada disso. O livro é totalmente voltado para o drama familiar, a influência de escolhas e o quanto as aparências nem sempre são o que parece.

O tempo todo ficamos divididos entre um assassinato ou um suicídio. Marilyn crê que sua filha querida e adorada não teria porque se matar, com certeza alguém fez com que Lydia fosse até o lago – ela tem pavor de água e não sabe nadar! James já não tem tanta certeza e tenta de tudo para desvendar os segredos da filha. Nath tem um pé atrás com Jack, certo de que ele tem algo a ver com tudo isso. E Hannah passa despercebida por todos, mas tem ótimas teorias e nos mostra seu lado observador e todos os segredos que guardou para si.

O livro caiu como uma luva após assistir à série “Os 13 Porquês”, por semelhanças óbvias. Apesar da grande diferença de períodos em que elas se passam, as histórias trazem os mesmos questionamentos: realmente conhecemos a pessoa que está ao nosso lado? Deixamos passar algum sinal de que ela precisava de ajuda? Algum ato meu acabou magoando-a e não percebi?

Após finalizar a leitura, assisti ao filme “Estrelas além do tempo”, em que a segregação racial e o machismo são amplamente expostos dentro dos Estados Unidos. Apesar da família Lee ter apenas olhos puxados e não serem negros, a discriminação chega a ser muito parecida pelos que se dizem “americanos puros”. Gostaria de dizer que felizmente muito tempo se passou e as coisas mudaram, mas sabemos que não é bem assim. Livros e filmes que tratam deste tema te fazem abrir os olhos para alguns problemas que talvez passem despercebidos, mas que precisam de alguma solução urgente – ou ao menos de alguma empatia da sociedade.

Talvez pela resenha já tenha ficado claro, mas vale ressaltar: leitura recomendadíssima. Novamente, apesar da trama se passar há 40 anos, o tema é bem atual e a escrita de Celeste envolve de maneira natural; o que faz com que a leitura flua muito bem.


Aviso Legal: Esse livro foi cedido pela editora responsável pela publicação no Brasil como cortesia para o Livros em Série.




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